''Um Dia com Picasso'', título do livro de Billy Kluver que acaba de ser lançado pela José Olympio (128 págs., R$ 29) é uma obra de múltiplas facetas, que combina um certo fascínio e dedicação pelo glamour do passado - sobretudo quando se trata dos hábitos e costumes dos grandes ícones da arte - com um rigor e dedicação impressionantes à pesquisa.
A história do livro tem início em 1978, quando o autor reunia imagens da comunidade de artistas de Montparnasse e descobriu que várias dessas imagens tinham relação entre si; as figuras identificadas (entre elas Picasso, Modigliani e Max Jacob) trajavam as mesmas roupas, traziam os mesmos pacotes.
A partir daí começa uma história com toques detetivescos, de busca e descoberta de novas informações, que ampliaram o material inicial - de cinco imagens - para um total de 29 fotos realizadas por Cocteau em sequência, criando um painel fascinante do grupo modernista. Como num jogo de esconde-esconde, Kluver concluiu que apenas na primavera ou verão de 1916 teria sido possível reunir todas aquelas pessoas na Rive Gauche, em Paris.
A autoria de Cocteau foi confirmada por depoimento em seu diário: ''Em 1916, durante a guerra, Montparnasse acontecia. Eu estava lá, durante a intervenção de Picasso (...). Nada documenta isso, a não ser algumas fotografias que tirei, certa manhã, na Rotonde'', escreveu ele. Até consultas ao Bureau de Longitudes de Paris, para calcular as diferentes posições do Sol, foram feitas, de maneira que as fotos não apenas são mostradas como são ordenadas numa lógica temporal e narrativa.
O caráter mundano desse trabalho já é um atrativo suficiente para quem tem interesse pelos bastidores parisienses do início do século. Numa das legendas, por exemplo, somos informados de que ''Simone de Beauvoir, então com 8 anos de idade, morava com sua família no apartamento em cima da Rotonde, cujas janelas aparecem na fotografia''. Em seu diário há menção ao café barulhento, frequentado por mulheres muito maquiadas, de cabelo curto, e que segundo seu pai seria ''uma espelunca para ralé e derrotistas''.
Mas a qualidade dessa obra vai bem mais além da mera curiosidade. Não se trata também de um clássico livro de arte, até porque a qualidade da reprodução, aliada à escolha de um papel inadequado para um livro do gênero, deixa um pouco a desejar. Mas é exatamente o despojamento, o caráter de registro um tanto afetivo e brincalhão, que mais nos atraem nesse exercício de Cocteau.
Além de mostrar como ''Cocteau introduziu um novo realismo na fotografia amadorística, documentando sistematicamente seu dia com Picasso'', a obra de Kluver reúne ainda uma importante documentação sobre o período, a cidade, os artistas e suas histórias. Cada uma das pessoas registradas pelas lentes de Cocteau - além de terem seus gestos e movimentos descritos nas legendas - é contemplada com uma pequena bibliografia. Outras fotos e desenhos assinados por vários autores também ilustram a obra. Há também explicações detalhadas sobre o processo de datação das fotos por meio do reflexo das sombras nas paredes dos prédios, um estudo sobre a máquina fotográfica e o filme (seis rolos de cinco fotos cada um) utilizados e um conjunto de notas históricas que situam o leitor no efervescente cenário de 1916, em plena 1 Guerra Mundial.
O encontro entre Picasso e Cocteau, por exemplo, antecedeu em pouco tempo a parceria entre eles - e Erik Satie - na execução do espetáculo ''Parade'' (recentemente o cenário realizado por Picasso para esse balé foi exibido em São Paulo, em mostra homônima).

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