Todo mundo vai ao parque
CRÔNICA
Todo mundo vai ao parque
Elisiê Peixoto
Depois de dias e dias trabalhando na feira agropecuária e industrial de Londrina, analisando e sentindo o clima country que decididamente se incorpora até naqueles que não possuem um centímetro de terra (mas circulam pelas vias da Rural de bota, chapéu e esporas), afirmo com total segurança: Num parque de exposições também se instala a democracia.
Rico, pobre, remediado, mulher, homem, criança de colo, criança grande, jovem, velho, gordo, magro. Socialites muito chiques (de chamois e botas, mas suando em bicas), que chegam a bordo de suas vans poderosas. Gente que se desloca 20 quilômetros em ônibus urbanos, com minguados trocados no bolso, mas com todo direito a se esbaldar em churros, maçã do amor, sorvete, coquinho, espetinho, guaraná e batata frita.
É incrível, mas depois de consumir tudo isso, tem gente que consegue forças para gritar, espernear, se descabelar e chorar pelos ídolos sertanejos e pagodeiros que soltam o vozeirão no final da noite. Até aqueles e aquelas (e eu sou uma dessas) que não sabem um único refrão das canções de Chitãozinho e Xoxoró, invadem os camarotes vips. E ensaiam alguns passos, enquanto a galera na arquibancada ergue os braços e engrossa o coro de quase 30 mil pessoas. Naquele momento todo mundo é igual. E o terreno é de todos.
Circular pelo parque exige boa memória. É lá que, de ano em ano, você encontra um velho amigo do seu pai, a filha crescida da companheira de faculdade, uma ex-secretária de forno e fogão (que a ex-vizinha roubou), a prima da tia de sua melhor amiga, a amiga divorciada (e você nem sabia), a ex-professora de piano (que você não vê há 10 anos), aquela que foi sua melhor arrumadeira e até aquela paixão de gaveta que a gente morre de vergonha e não conta pra ninguém. Todo mundo vai ao Parque, nem que for pra dar uma olhadinha, encontrar todo mundo, ou apenas pra levar filho no kamikase (e ficar roendo as unhas lá embaixo, com o coração saltando pela boca).
E quem não pára em qualquer barraquinha ou pra comer milho verde, um pão de queijo recheado ou até pra levar uma lembrança, por mais cafona que seja, a fim de lembrar da Expo. Tem gente que compra, sim. Até aquelas bolas enormes e coloridas que criança se joga no chão pra ganhar, o pai mais sisudo e a mãe mais fresca do mundo acabam comprando pra se ver livre da vergonha.
Não sou fazendeira, não distingo capim napier de cana fina, muito menos plantio de milho comum de uma plantação de milho pipoca, mas adoro um parque de exposições, uma feira agropecuária. Até a trabalho a coisa é boa. Fotografar as pessoas num clima zen, circulando calmamente, se labuzando de maça de amor. Entrevistar e fazer matérias naquele clima country , mesmo com Zezé di Camargo e Luciano cantando a mesma canção na sua orelha durante os 10 dias. Até isso eu enfrento feliz da vida. E, de quebra, gasto a sola do tênis andando por tudo, me delicio com os coquinhos açucarados, com os churros recheados e pego o final do show do Tchan. No outro dia estou lá de volta. E pra fazer tudo de novo.As fotos que ilustram a crônica da colunista Elisiê Peixoto são de Paulo Wolfgang e Mario Cesar. Todos os dias, eles captam flashes no Parque Governador Ney Braga. O tema é um só: gente. Essas - e muitas outras fotografias - podem ser vistas no Catuaí Shopping Center, que promove a exposição até o dia 20.





