De Curitiba
Depois de três anos nos palcos brasileiros levando a comédia ‘‘Todo Mundo Sabe que Todo Mundo Sabe’’, de Maria Carmem Barbosa e Miguel Falabella (com direção de Fabelalla), a atriz e co-produtora Arlete Salles, escolheu Curitiba para despedir-se da montagem. Somente hoje (às 21 horas) e amanhã (às 19 horas) no Guairinha.
No elenco estão Laura Cardoso, Bia Nunnes, Domingos Alcântara e Alexandre Barbalho. A cada um deles Arlete dedica comentários carinhosos, mas o filho Alexandre é especial. ‘‘Talvez o público daqui não o conheça como ator, mas ele é extraordinário. Se preparou muito para o teatro, estudou muito, tem uma belíssima presença. É um ator fidalgo, dizem, e eu tenho muito orgulho dele e muita alegria por dividirmos o palco’’.
Arlete, que recebeu a Folha Dois na noite de quinta-feira - o elenco chegaria mais tarde -, vive Evangelina, mulher riquíssima cujas preocupações na vida não foram além dos salões reluzentes e colunas sociais, mas que de hora para outra se vê completamente falida. Está irremediavelmente pobre.
Desfaz-se de tudo que tem de valioso e o que lhe resta é a cobertura, e as lembranças dos tempos de faustosidade, que ela divide com sua tia (Laura Cardoso). Com dívidas até o pescoço terá que vender o apartamento, mas se conseguir um bom casamento para seus filhos, poderá salvar-se da bancarrota.
As desventuras de Evangelina são a tônica do riso da platéia. Arlete atenta para a atualidade do texto, numa época de tantas perdas materiais, especialmente no Brasil. A personagem sofre um baque violento, busca saídas por todo lado, mas a realidade em que vive está longe das açucaradas soluções de Hollywood - não tem bilhete premiado de Loteria capaz de alcá-la ao patamar donde caiu.
‘‘Ela vai ficar pobre sim, mas mais rica como pessoa. A platéia não vai chorar, é uma comédia’’, ressalta. ‘‘Esta peça é uma celebração da vida, do amor, do renascimento, da nossa capacidade de superar as dificuldades’’. Seu autor, Falabella, pensa em adaptá-la para o cinema.
Novela e teatroEncerrada a carreira de ‘‘Todo Mundo Sabe que Todo Mundo Sabe’’, Arlete Salles prepara-se para novos projetos. Foi convidada para a próxima novela das 7 da TV Globo, onde fará o papel de Margô. A novela escrita por Walter Negrão ainda não tem título, nem ela sabe como será o personagem. Voltando ao Rio vai se encontrar com Negrão e o diretor Jorge Fernando para discutir esse trabalho.
‘‘Não quero ficar nove meses vivendo um personagem que não me dê nenhuma satisfação. É muito tempo para ficar infeliz. Então é bom a gente conversar antes, para ver se há identificação com o papel, se vai ser uma experiência boa para mim, para a empresa e ao público’’.
No próximo ano quer estar de volta ao palco, que ‘‘é a linguagem do ator’’. Está na fase de leitura de textos, porém, depois de duas comédias consecutivas de grande sucesso - a outra foi ‘‘A Partilha’’, que ficou cinco anos em cartaz -, quer ‘‘dar um tempo’’ ao riso. Pensa em montar um clássico, embora ainda não tenha uma clara noção do tipo de espetáculo.
A artista arquiteta seus planos pisando com cuidado num terreno minado. Afinal, estes não são os melhores tempos para se conseguir patrocínios, ela diz. ‘‘A situação atual de produção de teatro no Brasil é desanimadora. Os empresários estão cautelosos; eles não estão investindo em nada, e a cultura é sempre a mais atingida nos momentos de crise financeira no país’’. Seja como for ‘‘a gente não pode desanimar, tem que prosseguir’’, insiste Arlete.
Enquanto o futuro não acontece, a atriz cuida para que ‘‘Todo Mundo Sabe que Todo Mundo Sabe’’ chegue ‘‘perfeito’’ ao público. A peça foi escrita a ela por Miguel Falabella e Evangelina, assim como outros personagens, trouxe-lhe referências e ensinamentos. ‘‘Essa peça terá sempre um lugar especial no meu coração’’.
‘‘ Acho que Curitiba é um lugar perfeito para a gente fazer essa celebração, dar uma boa despedida a esse espetáculo’’, continua. Assim que as cortinas do teatro fecharem-se amanhã, mais uma etapa estará se encerrando e cada um dos elementos do elenco tomará outros rumos. Arlete Sales confessa:
‘‘Todas as despedidas são melancólicas. A gente vai se despedir de colegas, de um personagem, de um trajeto, de um momento profissional feliz. Sim, há uma partida, uma despedida. Mas o espetáculo não morre - ele se transforma numa partícula cósmica’’.
‘‘Todo Mundo Sabe que Todo Mundo Sabe’’, texto de Maria Carmem Barbosa e Miguel Falabella, com direção de Falabella. Hoje, sábado, às 21 horas, e amanhã às 19 horas, no Guairinha. Ingressos: R$ 25,00 (platéia) e R$ 20,00 (balcão).As aventuras de uma família que perdeu o dinheiro, mas não a pose, trazem Arlete Salles ao Guairinha
DivulgaçãoCenas da peça ‘‘Todo Mundo Sabe que Todo Mundo Sabe’’, que encerra a temporada nacional em Curitiba, com apresentações hoje e amanhã

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