Todo ano ela faz, tudo sempre igual
TODO ANO ELA FAZ,
TUDO SEMPRE IGUAL
Com ou sem verba, a diretora do Festival Internacional de Londrina, Nitis Jacon, vai à luta. Este ano, trouxe 20 grupos para Londrina
Antônio Mariano Júnior
Londrina
Milton DóriaNitis Jacon:O festival começa a se tornar mais visível para os patrocinadores. Este ano, a mídia estourou, ele foi mostrado na Discovery, na TV Cultura, TVE, Multishow...Como em outras vezes, o fantasma do dinheiro chegou a amedrontar. Mas assim mesmo o Filo aconteceu e pode comemorar, neste ano, sua 30ª edição. Como nas outras vezes também, a diretora artística do evento, Nitis Jacon, teve que apelar para o tradicional jeitinho. Ou seja, dos R$ 1,2 milhões previstos inicialmente houve uma subtração de quase RS$ 300 mil o que acabou reduzindo de 30 para 20 grupos participantes. Ainda há dívidas - cerca de R$ 150 mil - que ela sinceramente espera chegar o mais rápido possível. Eu faço o festival sempre baseado nos compromissos que as pessoas assumem comigo- afirma.
E o Filo 97 se fez. E teve um público que Nitis estima em cerca de 40 mil pessoas, o que corresponde a pouco menos de 10 por cento da população de Londrina. O festival está ficando cada mais visível para os patrocinadores, para as instituições oficiais através do povo e da mídia - acredita ela. E está mesmo. O teatro sempre a animou. Tanto que já está pensando em voltar a dirigir um espetáculo.
Em seus planos, está a vontade de fazer um auto de Natal com pessoas da comunidade da zona norte de Londrina e que seria apresentado no Cinco Conjuntos, claro, às vésperas do próximo Natal. Outra novidade que ela anunciou em primeira mão: não pretende disputar a vaga de reitora nas próximas eleições da Universidade Estadual de Londrina.
A seguir, os principais trechos da entrevista que Nitis Jacon concedeu à Folha2 em que fala sobre a eterna questão financeira, sobre a diferença do Filo para o festival de Curiba, sobre autoridades e também a esperança de ver construído o tão prometido Teatro Municipal.
O Filo deste ocorreu tudo muito bem, obrigado?
Nitis Jacon - Tudo é impossível, né? Porque num festival deste porte com a precariedade de estrututura que a gente tem, inclusive pelos problemas econômicos que a gente enfrenta, é impossÍvel que tudo saia redondinho. Teve, por exemplo, um grupo que vinha e que não veio, um grupo que não pode vir e a gente teve que ligar para resolver os problemas... Enfim, essas coisas que não chegam a ser fatais.
Quando digo muito bem, obrigado me refiro principalmente ao dinheiro. Foi o suficiente, sobraram dívidas? Foi o festival que você idealizou?
Nitis Jacon - Na verdade como eu havia idealizado, ele custaria R$ 1,2 milhões o que já era muito pouco.
Muito pouco?
Nitis Jacon - Pouquíssimo. Não tem festival que se faça com R$ 1,2 milhões. O Festival de Curitiba, neste ano, pelo que os produtores anunciaram, custou R$ 3 milhões. O da Ruth Escobar é de R$ 4 ou R$ 5 milhões...Então, um festival internacional com este valor ... não existe. Sempre fizemos festivais mais baratos. Com R$ 1,2 milhões eu queria trazer trinta grupos justamente por que são 30 anos de festival. Aí, a verba foi reduzida para R$ 1 milhão e reduzi para 20 grupos. Não tinha o dinheiro.... Aliás, essa é uma questão em que eu até insisti um pouco porque me constrange em todo o festival sair correndo atrás de dinheiro, quando termina. Dá impressão que eu sou uma louca porque vou fazer um festival, não tenho dinheiro e faço assim mesmo. Eu sou um pouquinho, até por sonhar e perseguir esse sonho.
Mas vamos voltar um pouco às dívidas...
Nitis Jacon - Eu faço o festival sempre baseada nos compromissos que as pessoas assumem comigo. Se o Governo do Estado diz que vai me dar uma verba, meu Deus, eu tenho que acreditar e começar a fazer o festival. Chega um mês, dois meses antes do evento ele ainda não me disse: vou te dar X, aí eu me preocupo. Ele vai dar, mas quanto vai me dar? R$ 10 mil, R$ 50 mil, R$ 1 milhão? Aí eu tenho que insistir. Aí ele diz: vou te dar R$ 250 mil. Eu achei pouco, mas ele vai me dar R$ 250 mil e eu tenho que trabalhar com isso. No festival eu tenho que ir atrás... no ano passado, eu rodei a baiana porque estava terminando o festival e o dinheiro do governo não vinha.
O governo, às vezes, é um pouco ingrato com o festival?
Nitis Jacon - Eu acho que o governo ele ... Às vezes, não. Eu acho que de um modo geral, na história política do Paraná, houve momentos em que festival foi apoiado e em outros em que sequer foi constatado.
Isso depende de pessoas ou do governo de uma maneira geral?
Nitis Jacon - Eu acho que depende do fato de que nós não temos uma política cultural do governo. Não temos. Não há uma definição sobre o que uma Secretaria de Cultura do Estado pretende para o Estado. Essa questão tem dinheiro ou não tem dinheiro também é relativa. É preciso, claro, porque para fazer meu festival eu preciso de dinheiro. Se o dia do festival não tem dinheiro eu vou ter de rodar a baiana para ele liberar. Mas eu estou saindo e dizendo: eu recebo X daqui, Y dali, Z daqui e N daqui. Recebi aquilo? Então, paguei o festival. Se um deles não me paga ou deixa de cumprir o compromisso, eu fico descoberta. E é aí que eu vou atrás.
Não falta um pouco de sensibilidade de algumas pessoas? Sim, porque todo o ano é a mesma ladainha...
Nitis Jacon - É, todo o ano.
O que falta, na sua opinião? Bom senso, mais cultura?
Nitis Jacon - Sabe o que eu acho? Que o festival não é visível para as autoridades. As autoridades não vêem o festival, não assistem ao festival. Agora, está ficando mais visível para os patrocinadores, para as instituições oficiais... está ficando visível através do povo e da mídia. Nesse ano, a mídia estourou - Discovery, TVE, Cultura de São Paulo, Multishow, a própria propaganda que o Sercomtel fez para nós e que foi maravilhosa... O festival começa a ter uma visibilidade maior para as autoridades porque a população fala. Mas as próprias autoridades não vão assistir ao festival inteiro (não podem, eu sei)... Porém elas não vão assistir ao festival...
O prefeito foi assistir a algum espetáculo?
Nitis Jacon - Não sei...
A secretária de Cultura foi?
Nitis Jacon - Foi sim. Sei que na abertura ela esteve e, talvez, tenha estado em algum outro espetáculo.
O Secretário de Cultura do Estado veio?
Nitis Jacon - Não, que eu tenha conhecimento não.
Falando em secretário, porque tamanha indelicadeza quando ele disse que o festival de Londrina era o Festival da Nitis?
Nitis JaconÉ, ele estava completamente equivocado. No fato de uma pessoa estar equivocada não está implícito que ela possa ser indelicada. Eu considerei aquilo que ele disse e depois ele desdisse, disse que não era bem aquilo que eu tinha dito, mas, enfim saiu no jornal, ele também não rebateu depois. Eu fiquei muito magoada porque além do que foi dito... Veja bem, Mariano, o que significa isso. Significa que de repente eu tenho problema com os patrocinadores e com os órgãos oficiais que me patrocinam que podem dizer: Ah, agora estou pagando para a Nitis se promover? É inevitável que eu promova. Eu vou tanto à luta, eu apareço tanto, eu brigo tanto, eu rodo a baiana, eu agrado as pessoas, eu faço homenagens, eu xingo, eu faço tudo e resultado: eu apareço.
É justo, não?
Nitis Jacon - O que eu vou fazer? Eu acho justo. Há 30 anos que eu me ocupo do festival, desde que ele começou mesmo que eu não o tenha criado - no primeiro, eu era membro do júri, depois passei a participar com o grupo e do quarto em diante eu passei a dirigir. Então eu acho justo porque uma pessoa se esforça, se dedica... eu nunca ganhei nenhum tostão, ao contrário: sempre paguei o festival. Até que poderia ter ganho. Não sou contra, por exemplo, que o Festival de Curitiba seja organizado por uma empresa de produtores e que recebe 20 por cento do orçamento total. Isso é legal.
Independente de qualidade e importância, você acha que essa é a grande diferença do Festival de Curitiba para o de Londrina? Ou seja, o Filo é na raça enquanto o Festival de Curitiba visa a lucro?
Nitis Jacon - Veja bem, eu não diria isso porque pode dar a impressão que o Festival de Curitiba é inferior e etc. Eu acho que qualquer produtor que promover um evento tem o direito legal de ficar com 20 por cento do orçamento. A diferença nossa não reside só na luta. Talvez a luta sirva. Ao mesmo tempo em que ela é um ônus, talvez seja uma vantagem porque, de repente, as pessoas começam a ver e dizem: puxa vida, olha o sacrifício. Muitas vezes eu paguei o festival, às vezes são R$ 2, R$ 3, R$ 5 mil. No tempo da Ista, eu tive que bancar R$ 30 mil meus. Isso, às vezes, pode dar uma aura de santidade em torno da Nitis. Eu acho que é bobagem. Não é bem isso. Eu também estou realizando meu sonho. Não estou fazendo isso só por Oh, que mulher generosa, maravilhosa, que se sacrifica pela cultura
Há um retorno pessoal...
Nitis Jacon - Claro, é meu sonho porque eu compreendo a importância do que eu faço. A nossa diferença não só com o Festival de Curitiba como também o de São Paulo e vários outros países é que o Filo foi adquirindo uma cara, um perfil que o diferencia dos demais. Primeiro porque ele tem 30 anos. Eu não sei de outro festival que tenha 30 anos. Eu acho que alguns da Europa... Segundo: é um festival realizado por um grupo de teatro e isso o diferencia extraordinariamente dos outros.
E qual a grande vantagem nisso?
Nitis Jacon - É que somos um grupo de teatro e compreendemos o que significa quando saímos daqui para nos apresentar em outro país, a gente sabe o que é preciso.(...). O grupo de teatro na organização facilita porque sabemos o quanto isso é importante. Um grupo de fora manda suas necessidades técnicas e quando chega aqui ele tem absolutamente tudo. Isso e também o acompanhamento o tempo todo dá uma tranquilidade, uma segurança. Eu acho que esse fato diferencia e muito nossa organização. A fama da organização do nosso festival corre o mundo. Outra coisa que diferencia é a direção técnica. O Fernando (Jacon) é meu filho e sem ele não faria um festival desta qualidade.
Já passou pela sua cabeça de passar o cargo de diretora do festival para outra pessoa?
Nitis Jacon - Eu já tive esse desejo... às vezes. É que eu fico muito revoltada quando eu penso que meu empenho faz com que muita gente interprete equivocadamente: por que ela se dedica tanto? Quanto ela está ganhando?
Teatro Municipal. Em 92 o Cheida prometeu assim como anteriormente outros prefeitos prometeram...
Nitis Jacon - Sim, no tempo do Richa já tinha um projeto para um Teatro Municipal.
Enfim, o melhor teatro de Londrina é um cinema?
Nitis Jacon - É um cinema.
Sinceramente, porque esse teatro não sai?
Nitis Jacon - Eu não sei, não sei... Às vezes eu até acho que se o festival acontece sem um Teatro Municipal se possa pensar que o teatro não é tão importante...
É cômodo, então para as autoridades, pensar assim?
Nitis Jacon - Eu acho que isso facilita ao governo estadual, municipal, federal porque nós temos condições... Veja bem: o BNDES facilita empréstimos a longuíssimo prazo para construções culturais. O BNDES está voltado para atividade cultural do País por uma determinação do nosso governo federal.(...)
Existe um projeto de teatro, o que você acha?
Nitis Jacon - Eu gosto muito do projeto, acho belíssimo. É bastante bom.
Falta sair do papel?
Nitis Jacon - Falta sair do papel... Eu lembrei de um negócio. Na outra gestão do Belinati ele nos deu um terreno durante a abertura de um festival. Foi aplaudidíssimo. Quem sabe agora ele nos dá o teatro antes de sair, né? Eu tenho essa esperança, sabe?





