O amor é coisa complicada. Pode ser uma leve brisa que chega para um chá e acaba ficando para sempre. Pode ser um forte vento que tumultua toda a casa e sai pela janela sem dizer adeus.
Cada época possui sua expressão típica do amor, como verbetes de dicionário. Com o tempo o significado das expressões, dos verbetes, vai se modificando, assumindo outros sentidos.
Nos dias de hoje, o amor poderia encontrar sua expressão adequada no filme de Sandra Werneck, ‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’, um dos últimos sucessos de público do cinema brasileiro. Com Andréia Beltrão e Daniel Dantas nos papéis principais, o filme é um retrato humorado das relações amorosas seguindo a máxima de Vinicius de Moraes: que seja eterno enquanto dure.
Com roteiro de Paulo Halm e José Roberto Torero, ‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’ ganha agora a forma de livro, lançado pela Editora Objetiva. A edição mantém a mesma estrutura do filme, fragmentária e cronológica. Graças a esta estrutura o livro ganha o mesmo pulso do filme. Como complemento, traz depoimentos da diretora, roteiristas e atores sobre todo o processo, da idéia inicial à conclusão final.
‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’ narra o encontro, o amor e o desencontro de Gabriel, um biólogo recém-saído de um casamento, e Luísa, um arquiteta em busca do homem da sua vida. Eles se conhecem uma situação absurda, num cemitério, e se apaixonam entre o medo e o desejo. Percorrem todas as fases do amor: a descoberta, a paixão, o casamento, os conflitos, e finalmente a dor da separação.
Pelo sim, pelo não A história é pontuada pelas falas de Barata, amigo de Gabriel, e Marta, amiga de Luísa. Ambos são céticos com relação ao amor. Seus depoimentos, carregados de ironias, estão fundamentados na matemática e na biologia. Barata abre a história de maneira objetiva: ‘‘De todos os primatas, o homem é o único que possui esse sentimento chamado amor. Os outros, como os chimpanzés, procuram as fêmeas só para copular e criar filhotes e têm uma vida bem simples. Eu acho que essa história de amor acaba complicando muito as relações entre macho e fêmea. É por isso que eu tenho inveja dos chimpanzés.’ Marta assinala logo em seguida: ‘‘Se tem uma coisa que eu entendo, é de número. Por exemplo: neste planeta têm cinco bilhões de pessoas. Destes cinco bilhões, dois bilhões e quatrocentos milhões são homens. Daí, se eu tiver 24 namorados em toda a minha vida, uma idéia bem razoável, a chance de eu encontrar o homem mais perfeito do mundo para mim é de uma em cem milhões. Mais difícil que ganhar na loteria. É por isso que eu não acredito no amor.’
Os dramas de Gabriel e Luísa trafegam entre a felicidade e o tédio. Na felicidade: ‘‘Eu acho que tinha que ter uma lei especial para um dia como este. Não tem licença-maternidade, licença paternidade, um monte de licenças? Então, tinha que ter uma licença-felicidade. Quando a pessoa se apaixonasse, ela tinha que ter o dia seguinte inteiro livre, sem ter que fazer nada, sem ter que trabalhar.’ No tédio: ‘‘Sabe o que eu acho? Esse negócio de sexo, no fundo, no fundo, é tudo invenção. Coisa de cinema. Não pode ficar fantasiando. O máximo que a gente consegue é acordar um pouco mais alegrinha no dia seguinte. Isso se o cara for legal. Se não for, desde que ele não ronque muito alto, às vezes é melhor dormir mal-acompanhada do que sozinha.’
Enquanto dure No fim da paixão, quando a chama lentamente se extingue, as incompatibilidades tornam-se monumentais. A desilusão estica seu tapete: ‘‘O primeiro sintoma da desilusão é o egoísmo. Você começa a não dar bola para as necessidades do outro. Começa a esquecer os compromissos... E mesmo se não esquece, faz de conta que não se lembrou. Você começa a se interessar pelos seus próprio desejos e dane-se o resto. Agora, se chegou num ponto em que está tudo um saco, a gente vai fazer o quê? Fingir que está gostando?’
‘‘Pequeno Dicionário Amoroso’’ pode ser comparado a um episódio cinematográfico da série televisiva ‘‘Crônicas da Vida Privada’’. Mas vai além. Mesmo abordando as relações amorosas com humor, seu roteiro realiza incursões no lírico e no dramático para criar uma história mais ampla, a trajetória dos sentimentos amorosos. Um roteiro que consegue abarcar as nuances do amor contemporâneo, tanto do ponto de vista masculino como feminino, tanto na união como na separação.
qPequeno Dicionário Amoroso - roteiro de Paulo Halm e José Roberto Torero, Editora Objetiva, 188 páginas, R$ 16,50/Livraria Rosa do Povo.

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