Todas as letras em campo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de junho de 2002
Fernando Miragaya<br>TV Press 
Árbitro de futebol é uma profissão ingrata e masoquista. Mesmo assim, Arnaldo Cezar Coelho é um entusiasta da carreira. Tanto que o ex-juiz e hoje principal comentarista de arbitragem da Globo resolveu lançar o livro A Regra é Clara antes de embarcar para o Oriente, onde comenta mais uma Copa do Mundo. Aproveitando o bordão que o tornou conhecido nas transmissões globais, Arnaldo reúne histórias, curiosidades, fugas em camburão e muitos, muitos xingamentos registrados em mais de 20 anos de carreira como juiz. Minha vida é cheia de histórias, enaltece.
A idéia de escrever o livro nasceu no ano passado. Nas palestras que costuma dar e na coluna que tem no jornal carioca O Dia, Arnaldo relembra sempre fatos ocorridos nos jogos que apitou e outros envolvendo colegas de apito. Numa ocasião, uma pessoa acabou sugerindo que ele lançasse um livro. Arnaldo, porém, estava temeroso quanto à Seleção, que disputava as eliminatórias a duras penas. Insistiram e falei que, se o Brasil se classificasse, eu iria escrever o livro para lançá-lo antes do Mundial, recorda.
Com o Brasil classificado e o país devidamente aliviado, Arnaldo passou a organizar a obra. Chamou o jornalista João Ariosa para montar a base da autobiografia, pegou artigos, reuniu fotos, lembrou fatos marcantes e relatou histórias desde o início no futebol de praia carioca até o maior feito: apitar a final da Copa do Mundo de 1982. Botei da forma que eu sempre conto. Quando se lê, percebe-se que sou eu quem está contando as histórias, garante.
Realmente, a narrativa é objetiva e segue a forma de Arnaldo falar na tevê. O jeito simples de contar as histórias, inclusive, deixa os causos mais divertidos. Como na vez em que estava bandeirando uma partida no Maracanã e um sujeito na geral não parava de gritar: Bandeirinha!. Arnaldo não olhava e o homem resolveu chamar o massagista de um dos times. O massagista caiu na asneira de olhar, Arnaldo foi dar uma espiada e se deparou com o sujeito com as calças arriadas, balançando a genitália e gritando: Massageia aqui!.
Em outros casos, ele relata a vez em que ficou detido no Aeroporto de Assunção, no Paraguai, porque teria falado mal da polícia após um jogo entre as seleções paraguaia e colombiana, que terminou em pancadaria e com os policiais batendo nos visitantes. Em outro trecho do livro, conta que orientou um juiz a se hospedar em um hotel de Porto Alegre, porque a camareira de um andar torcia para o Internacional e, se o time ganhava, ela caprichava no serviço e no café da manhã. O Inter venceu e, no dia seguinte, o amigo chamou a camareira todo simpático. Emburrada, ela respondeu: Olha aqui, sou gremista e meu marido é da Brigada Militar. A camareira deste andar está de folga e vamos deixar de papo.
Mas o comentarista não é nenhum Forrest Gump. Ele garante que todas as histórias são verídicas. A licença poética limitou-se ao prefácio. No Carnaval deste ano, ele estava em casa ardendo em febre e sem idéias para escrever. Inventou, então, uma ligação de Eurico Lyra, a pessoa que o descobriu mas que já faleceu. No fictício diálogo, Arnaldo relembra momentos da carreira e fala de sua função como comentarista da Globo e de seus colegas de jogos. Os caras da Globo falaram que esculhambei os três narradores da emissora: falei que o Galvão Bueno bate de frente, que o Cléber Machado narra Carnaval e que o Luiz Roberto ninguém conhece, brinca.
Arnaldo conta que deixou muitas histórias de fora que dariam para escrever um A Regra É Clara 2. Mesmo longe do apito, ele também tem causos como comentarista. Num dos primeiros jogos pela Globo, em 89, no Morumbi, ele lembra que a caminhonete da emissora quase foi tombada por torcedores enfurecidos. Recentemente, depois de um Vitória e Corinthians, ele foi pegar um táxi, já previamente combinado, na saída do Estádio Barradão, em Salvador, juntamente com Carlos Casagrande. Só que o carro não estava lá quando ele chegou e os torcedores, hostis, partiram para cima deles. Saí correndo para um lado e o Casagrande para o outro. Eu ia morrer, dramatiza. Passei a vida toda saindo em camburão para não levar porrada. Pensei que ia estar livre disso como comentarista, diverte-se.


