O francês Yves Lebreton traz para o Festival Internacional de Londrina (Filo) uma amostra de um teatro baseado na memória corporal com a performance ‘‘Personne’’ (ninguém, em português), em dupla apresentação no Teatro Zaqueu de Melo (hoje e amanhã, às 19 horas). Discípulo do pai da mímica moderna, Étienne Decroux, Yves Lebreton desenvolve há décadas essa metodologia, calcada na presença física do ator.
Para Lebreton, ‘‘nenhum texto, nenhuma direção, nenhuma cenografia podem substituir a presença física do ator. O teatro não é um apêndice da literatura, nem uma colagem ou síntese da arte, mas um instante único de encontro entre o ator e o público’’. É esse conceito que o francês – radicado na Itália – apresenta em ‘‘Personne’’.
Em cena, o ator se vale apenas do corpo e da voz para dialogar com objetos: uma mala de viagem, um relógio, uma cadeira, um copo, um martelo e uma pena. Pode-se dizer que ‘‘Personne’’ é a criação do tudo através do nada. Cada objeto ganha sentidos diferentes no teatro gestual e minimalista de Lebreton. O ator ressalta que seu teatro é de movimento, não da palavra. A voz é utilizada apenas para produzir sons. ‘‘O corpo é a licença da comunicação. O impacto do movimento é imediato. É o primeiro contato’’. Lebreton também aposta na capacidade inventiva do homem, na abertura da imaginação. ‘‘Se o homem se fecha para a imaginação, tudo acaba’’. ‘‘Personne’’ é baseada na transformação da realidade. ‘‘É uma viagem de imaginação com o objetivo de abrir a mente frente à realidade’’, diz.
Nascido em Paris no ano de 1946, Yves Lebreton desenvolve há 35 anos essa metodologia de trabalho baseada na memória corporal. Ele estudou quatro anos na escola de Étienne Decroux e depois partiu para uma pesquisa individual. ‘‘O trabalho de Decroux era de extrema precisão e rigor, com toda técnica baseada no controle do corpo, no movimento que transmite a concentração mental’’, conta Lebreton. ‘‘Depois dessa formação, abri uma porta no trabalho de Decroux. Descobri a presença das energias animal, vegetal e mineral no corpo’’, conta.
Lebreton queria sentir o instinto e não a racionalidade do controle mental. Por isso desenvolveu a prática de três princípios básicos: a mímica corporal (herança direta de Decroux), o corpo energético (ver box) e o corpo vocal.
O francês se iniciou nas artes aos 16 anos, estudando música clássica e depois artes gráficas e pintura na Academia de Belas Artes de Paris. Nesse mesmo período – de 1964 a 1969 – estudou com Étienne Decroux. Em seguida fundou e dirigiu na Dinamarca o ateliê teatral ‘‘Studio 2’’, um anexo do Laboratório Inter-Escandinavo de Artes Cênicas de Eugênio Barba. O próximo passou foi fundar, em 1979, a companhia Théâtre de l’Arbre em Paris, mais tarde transferida para a região de Toscana, na Itália, onde criou o ‘‘Centro de Formação, Pesquisa e Criação Teatral: l’Albero’’. O currículo de Yves Lebreton traz a lendária performance ‘‘Mister Ballon’’ (1973), a partir do qual se apresentou mais de 1.700 vezes ao redor do mundo.
SERVIÇO:
‘‘Personne’’ – Espetáculo de Yves Lebreton, da Itália. Produção: International Centre for Theatrical Formation Research and Creation.

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