Todas as certezas num redemoinho


Marcos Losnak  Especial para Folha 2
Marcos Losnak Especial para Folha 2

Autores cânones da literatura brasileira sempre foram disputados entre tapas e empurrões pelas grandes editoras. O ano de 2018 foi o ano de disputa pelos direitos de publicação da obra de Guimarães Rosa (1908 - 1967), que há décadas estava nas mãos da editora Nova Fronteira. Após negociação com várias editoras, os herdeiros dos direitos autorais do escritor assinaram contrato com a editora Global, que ficará responsável pela publicação das obras completas de Guimarães Rosa a partir de 2019.

João Guimarães: autor transporta o acordo mitológico de Fausto, de Goethe, para o sertão brasileiro
João Guimarães: autor transporta o acordo mitológico de Fausto, de Goethe, para o sertão brasileiro | Reprodução/Acervo Fundação Biblioteca Nacional



Apenas uma obra ficou de fora desse contrato, "Grande Sertão: Veredas", o único romance escrito por Guimarães Rosa. O direito de publicação ficou nas mãos da editora Companhia das Letras. Sem perder tempo, a editora está colocando dia 25 de fevereiro nas livrarias a nova edição do livro.
A edição vem acompanhada de cronologia ilustrada e textos sobre a obra assinados por Clarice Lispector, Silviano Santiago, Fernando Sabino, David Arrigucci Jr., Benedito Nunes, Roberto Schwarz e Walnice Nogueira Galvão. Traz também desenhos do artista paranaense Poty Lazzarotto (1924 - 1998) que integravam a primeira edição de "Grande Sertão: Veredas" de 1956. A capa do volume, criada por Alceu Chiesorin Nunes, é uma adaptação bordada do avesso do "Manto da Apresentação", obra do artista plástico Arthur Bispo do Rosário (1909 - 1989).

A obra-prima de Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas", traz o jagunço Riobaldo narrando sua história a um ouvinte invisível. Espantado com sua própria sinceridade diante de um forasteiro, admite que não entende claramente os acontecidos: "Conto ao senhor é o que eu sei e que o senhor não sabe; mas principal quero contar é o que eu não sei de sei, e pode ser que o senhor saiba."
Riobaldo narra seus caminhos ao lado do amigo Diadorim, igualmente jagunço do sertão de Minas Gerais. Caminhos que ele resume com as seguintes palavras: "A vida não é intendível." E nesse caminho surge o lendário e universal pacto com o demônio. Guimarães Rosa transporta para o sertão brasileiro o lendário acordo mitológico de Fausto imortalizado pelo escritor alemão J. W. Goethe (1749 - 1832).
Riobaldo vive num mundo pautado pela oralidade. Seus questionamentos sobre a existência de deus e do diabo estão vinculados às essenciais dúvidas humanas. Como também estão vinculados aos mistérios humanos os jogos de poder entre o bem e o mal.

Em "Grande Sertão: Veredas", Guimarães Rosa consegue reunir com maestria dois elementos definidores da literatura: linguagem e conteúdo. E essa é a prova de sua potência literária. Alguns leitores podem se esbarrar nas primeiras páginas da obra, iludidos pela dificuldade de leitura, se esquecendo de que forma é conteúdo, de que linguagem é conteúdo.
A experiência particular de cada leitura de "Grande Sertão: Veredas" se revela uma das melhores aulas de literatura nesse sentido. É como entrar num universo aparentemente estranho que, por ser demasiadamente humano, torna-se próximo de qualquer ser humano. Próximo de qualquer princípio de humanidade.



Todas as certezas num redemoinho
Reprodução





Serviço:
"Grande Sertão: Veredas"
Autor - João Guimarães Rosa
Editora - Companhia das Letras
Páginas - 552
Quanto - R$ 84,90

Fragmento:

Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvore no quintal, no baixo do córrego. Por meu certo. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser - se viu -; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado dos beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram - era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei que for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões.

(Fragmento de "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa)

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