ReproduçãoCarmen Miranda: faceira e moderna, o mito nasceu malicioso no início do séculoA obra em CD da cantora Carmen Miranda (1909-1955) se avoluma. A caixa ‘‘Carmen Miranda’’ (BMG), de três CDs, recupera os primeiros anos profissionais da mais brasileira das cantoras nascidas em Portugal - ou em qualquer outro país, Brasil inclusive. Perdem-se aqui suas duas primeiras gravações - ‘‘Não Vá Simbora’’ e ‘‘Se o Samba É Moda’’, ambas de Josué de Barros -, lançadas sob o rótulo Brunswick, em 1929. Logo em seguida, Carmen assinou contrato com a então iniciante RCA (hoje BMG) e é aí que começa a história recontada nessa caixa, a partir de ‘‘Triste Jandaia’’ e ‘‘Dona Balbina’’, do mesmo autor, lançadas em 1930.
É chumbo grosso, já de cara. ‘‘Triste Jandaia’’ apresenta uma Carmen Miranda de voz caricaturesca num papo malcontado de gaviões, jandaias, periquitos, galos, pintinhos. O futuro mito nascia malicioso, provavelmente chulo para padrões de início de século. Seria assim em não poucas canções. Exemplo é ‘‘Tenho um Novo Namorado’’ (30), em que ela descreve o namorado: ‘‘Não é bonito nem inteligente (...)/Mas na varanda, sem a luz acesa,/Ai, meu Deus, amiguinha, que surpresa!’’
Mais um, em ‘‘Sou da Pontinha’’ (31), de Ary Barroso: ‘‘Meu bem, eu dei/Não sei em quem/Um beijinho que me fez mal/Numa noite de Carnaval’’. Uau! Outra marca se estabelecia de imediato: ela usava, nesses começos, um linguajar caboclo, feito de vocábulos como ‘‘Carnavᒒ, ‘‘amô’’, ‘‘qued꒒, ‘‘mulh钒.
Tentava, por um lado, disfarçar a origem portuguesa - ainda que tivesse vindo ao Rio aos 18 meses, vivia num Brasil nacionalista, que levava o diretor de sua RCA a querer ocultar detalhes que pudessem porventura prejudicá-la.
Por outro, queria mesmo era se aproximar do povo, forjando, pioneira naquilo que hoje se chama ‘‘marketing’’, a imagem de cantora popular, carismática ouça-se o efeito cômico de ‘‘Miss Sertão’’ (30) e ‘‘Good-Bye’’ (33), ambas já namorando americanismos para vender cachos de amor à pátria a seus consumidores.
Naquela época era simples assim, mas não se pode deixar de ver hoje em Carla Perez uma Carmen Miranda pós-moderna empenhada em agradar o povão com suas danças de bundinha. Quem não tem balangandãs... Já em 1930 o futuro de fama que a aguardava já se delineava na marchinha ‘‘Ta-hi’’, de Joubert de Carvalho. Vendeu - conta o jornalista Tárik de Souza, em biografia que acompanha a caixa - ‘‘a montanha de 35 mil cópias’’. Ainda que fosse assim, na fase RCA, repleta de tiros precisos de Lamartine Babo, Assis Valente e Synval Silva, não se fazia suspeitar a Carmen arraigada na terra brasileira e cristalizada como intérprete oficial do período getulista. Aí, quando ela bafejava o ufanismo, como em ‘‘Eu Gosto da Minha Terra’’ (‘‘Tenho orgulho da raça/Da gente pura do meu país’’), era mais reafirmação de brasilidade (para despistar a origem portuguesa) que ufanismo.
Na RCA, ela gravou, entre 1930 e 1935, 148 músicas - na caixa estão apenas 66, o que mantém bastante incompleto o documentário em CD dos primeiros anos musicais da artista. Poucos dos temas que até hoje se associam a Carmen Miranda foram fabricados nesse período inicial. A atriz de ‘‘O Que É Que a Baiana Tem?’’ (39), ‘‘No Tabuleiro da Baiana’’ (36), ‘‘Camisa Listada’’ (37) floresceria na Odeon (hoje EMI), a partir de 1935.
O material Odeon está disponível em CD, de forma bem mais completa, na caixa ‘‘Carmen Miranda’’, de cinco CDs, lançada há dois anos pela EMI. Teria valor artístico mais polpudo a da EMI, pode-se dizer. Mas é com essa nova caixa que se pode amplificar um painel da personalidade de Carmen, do populismo simpático de cantora cabocla ao nacionalismo oficialesco do imaginário de Ary Barroso e, enfim, à internacionalização, via Hollywood, da ‘‘falsa baiana’’.
A gênese que a BMG recupera já contempla tudo, desde a mimosa ‘‘Good-Bye’’, do mulato Assis Valente: o Brasil destinava-se, desde Carmen Miranda, ao nacionalismo de araque e à globalização. Era só questão de tempo.

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