Toda leveza e simplicidade da arte
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 16 de junho de 1998
Zeca Corrêa Leite 
Até o final do mês a Espaço Contemporâneo Galeria de Arte exibe a primeira individual de Sarro em Curitiba. A exposição, com 32 óleos e oito esculturas (em bronze, fiberglass e gesso) constituiu-se em fato raro - o artista não costuma juntar tanto material assim nas suas mostras. A abertura, na manhã de sábado passado, foi um sucesso. Restam poucas unidades à venda.
As telas de Sarro são ocupadas por homens e mulheres quase tristes, postos em sentimentos descansados. Não há labaredas das paixões, nem os espíritos são contidos. Antes disso: as almas são apascentadas, os personagens parecem viver unicamente aquele momento, seja tocando canções, como admirando um fruto ou uma flor.
Muito da vida e das crenças de Sarro estão nessas imagens. Sobre a pureza ostentada pelas personagens, ele explica que é assim que vê o ser humano. Até que me provem o contrário, confio no homem. Jamais julgo uma pessoa por sua aparência, pela forma física ou vestimenta, disse o artista para a Folha2. Para mim todas são de boa índole.
Os músicos que ele coloca nos quadros têm por origem seu imenso gosto pela música e o desconhecimento total sobre como tocar um instrumento. A explicação para isso é a falta de tempo. Todo momento que ele tem disponível é dedicado para a pintura, e mais recentemente à escultura.
Sarro ouve música como um lenitivo: Necessito da tranquilidade que ela nos dá, para pintar. E o que ele ouve? Tudo que seja bom. Em outras palavras: música clássica, e popular brasileira (especialmente Chico Buarque e Gilberto Gil, entre outros), new age, música sertaneja. O que não gosta é de grupos de pagode.
As frutas, presença frequente nos seus quadros, também têm íntima relação com seus tempos de criança. Nascido numa família de agricultores muito pobres - quando criança capinava nas fazendas de café - muitas vezes ambicionou frutos que não foram seus.
Colocá-los à disposição de seus personagens, é como resgatar um pouco o passado e trocar as vontades pela saciedade. Atende à carência de menino, mas de forma suave, sem revolta. É inconsciente o que faço, mas houve um período de minha infância em que eu só tinha direito às cascas jogadas fora.
Daí vem a certeza: Cada quadro que faço representa mais uma etapa que venço na minha jornada. Ali consigo transmitir um sentimento que por muito tempo ficou preso. Para o artista, toda sua vida está estampada nas telas, como uma confissão.
Nenhum drama por isso. Para um menino saído da roça, que teve seu talento despertado aos quatro anos de idade, foi catador de papel, servente de pedreiro e metalúrgico em São Paulo, antes de conhecer o estrelato, o futuro assim como a vida, é uma estrada a ser trilhada com felicidade.
Fiz o primário e saí para o mundo. Tem hora que me questiono sobre as surpresas que a vida prega na gente, comentou. Pois é. Sarro guardou por muito tempo a ânsia de trabalhar com as formas e as cores, mas ao invés de pincéis tinha a enxada nas mãos. A família trocou Andradina por São Paulo, quando ele tinha 16 anos de idade.
A capital recebeu-os com todas as dificuldades que são oferecidas aos que não têm nada. Adolescente, o artista foi trabalhar numa oficina de pintura para propaganda. Sentiu que estava na sua praia, até que um dos empregados da oficina casou-se e convidou-o para a cerimônia, em Brodosqui.
Sarro foi para lá e conheceu o museu dedicado a Portinari, a figura mais ilustre da cidade. Foi como se recebesse a Anunciação. Num impacto foi tomado pelas formas, pelas cores, pelos temas que podiam ser traduzidos através das tintas. Nunca mais sua vida foi a mesma.
Autodidata, sem nunca ter frequentado uma escola de Belas Artes, deu de cara com o muro das impossibilidades - como furar o cerco e chegar às galerias? Foi então expor seus quadros na Praça da República. Lá passou uns dez anos, enquanto sentia que ganhava terreno e simpatia dos galeristas.
Sua clientela era quase exclusivamente estrangeira. O pessoal que vinha de fora gostava de seus temas - ainda fortes, duros, retratando as pessoas simples de sua vivência. Os conterrâneos davam conselhos do tipo pinte paisagens. Não era isso que Sarro queria; e jamais deu ouvidos a essas orientações.
Quando chegou a Curitiba na semana passada, tinha regressado há pouco de um tour pela Suécia, Alemanha, Suíça, Bélgica. Trabalho 14 horas por dia, a vida é muito rápida. Mas para se fazer caminho na arte, ele é muito longo, define. Desde 1992 o artista dedica-se também às esculturas, todas em tamanhos monumentais.
Posso me considerar feliz, vindo de onde vim, e poder mostrar meu trabalho ao mundo, disse à Folha2. Sua vitória é mais um motivo para se acreditar na vida, naquilo que ela tem de vitória, desde que haja determinação, perseverança. Todo ser humano tem capacidade de ser o que quiser. Depende dele querer realmente ser. Aí tem que ir à luta e provar que é capaz. Foi o que eu fiz.
Pinturas e esculturas de Sarro - na Espaço Contemporâneo Galeria de Arte. Rua Saldanha Marinho, 1.577, tel. (041) 232-5375. As obras permanecem em exposição até o final do mês.


