Toda bossa de GUILHERME ARANTES
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sábado, 15 de setembro de 2007
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
A geração tipo assim - classe média dos anos 80 - não poupou alguns dos seus ídolos. Ao contrário, a década de 60, papo-cabeça e mais politizada, ergueu um panteão para ícones da MPB, como Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, que se tornaram patrimônios tombados da brasilidade.
Apesar do divórcio da mídia, que tem um fetiche por ídolos jovens, desprezando os que perderam o viço, artistas como Guilherme Arantes, que emplacou um sucesso atrás do outro, tentam sobreviver separados da imprensa.
''Meu Mundo e Nada Mais'' e ''Amanhã'', que embalaram as tramas da vilã ''Nice'' na novela global ''Anjo Mau'' (Suzana Vieira) e de ''Júlia Matos'' (Sônia Braga) e suas meias soquetes de lurex em ''Dancin'Days, também se tornaram trilhas sonoras da vida de muitas pessoas.
Arantes ainda fez sucesso na voz de intérpretes, como Elis Regina, Caetano, Cauby Peixoto, Biafra. Leila Pinheiro, Os Cariocas e Barão Vermelho.
Os anos 80 passaram e agora um Arantes, cidadão soteropolitano, desde 2000, quando se mudou para a capital baiana para montar um estúdio e uma pousada, também se tornou aquelas figuras que olham a trajetória, como os que já fizeram muito, escreveram muito, tiveram filhos e plantaram uma árvore. Uma árvore não. São mais de 40 mil mudas plantadas, através da Organização Não-Governamental (ONG) Instituto Planeta Água.
No próximo dia 4, no Master Hall, o cantor faz show em Curitiba. Londrina também está no roteiro de lançamento do CD ''Lótus'', primeiro disco em quatro anos, mas a apresentação ainda não tem data marcada.
O CD traz 12 músicas inéditas, duas delas ''Verão de 59'' e ''Vaivem'' em parceria com Nelson Motta, e ''Disque Sim!'', com Max Vianna.
No mais, o disco é uma mistura de gêneros, como a ''Blue Moon Para Sempre'', que garante ser a sua preferida no CD, ''Um Grão de Amor'', um pop que abre o trabalho e que reedita algumas experiências de Arantes nos anos 80 e 90, com letras em clima de alto astral, e ainda uma aventura pela black music na faixa ''Cena de Cinema''.
A Som Livre também está lançando um especial da série ''Intimidade'', CD e DVD, com Arantes e banda, gravado em casa.
Sobre a carreira, os sucessos e a maturidade, Arantes fala na entrevista em que, ao mesmo tempo, aproveitava para curtir o sol da Bahia.
Como você insere esse novo CD na sua carreira?
Guilherme Arantes - Acho que é mais um trabalho, como estou acostumado a fazer. Nessa altura, eu não posso me aventurar e buscar fazer coisas que eu não sei. O que sei fazer são as baladas, as bossas, o pop. Então trago essa receita, embora a maneira de fazer o disco é que foi diferente porque foi uma produção totalmente nossa, lá na Bahia. Uma produção que eu não tive interferência nenhuma. Aprendi a fazer o disco de ''A'' a ''Z''.
Foi mais difícil produzir fora do eixo Rio/São Paulo?
Não porque hoje, com os recursos digitais todo mundo faz em condições praticamente iguais. Talvez a diferença que tenha do Rio ou São Paulo são os músicos. Principalmente no Rio existe uma tradição maior de músicos de qualidade, que gravam com todo mundo. Hoje, essa diferença tende a desaparecer.
A Bahia tem inspirado as suas composições?
Muito pouco. Para falar a verdade, a maior influência que tem é o ambiente, a natureza, o céu estrelado, a maneira de viver mais ensolarada, poder viver o tempo todo de calção, chinelo. Não tem muito a formalidade de São Paulo. Morei oito anos no Rio, que é meio caminho da Bahia, que já é um lugar tropical mais ensolarado. Então, eu não vejo muita influência. Acho que sou um cara bem refratário aos sotaques musicais. Ainda mais a Bahia que tem esse lado mais axé, assim mais corporal.
Por que você trocou o Rio pela Bahia?
Foi estratégico. Eu vim implantar um estúdio com uma pousada e uma ONG, o Instituto Planeta Água, que a gente faz ações de replantio e educação ambiental. Trabalhamos em parcerias com empresas na preservação de uma área enorme de manguesais e restingas. Isso aí me fez amadurecer também. É um conteúdo agregado à minha vida. Três filhos meus se mudaram para cá. Foi uma mudança grande para a família toda. Mas a Bahia é meio interligada ao Sudeste. Não é uma capital nordestina por excelência. É meio híbrida. A Bahia é próxima do Nordeste. Não chega a ser uma opção radical como Recife ou Fortaleza.
Nos anos 80 e 90, você estava mais na mídia, como avalia esse afastamento?
Eu tive muita sorte nos anos 70, depois nos 80. Digo sorte por causa da onda musical e por estar inserido numa coisa coletiva, numa arte de classe média ou nicho de classe média, que foi o pop brasileiro dos anos 80. Eu tenho muita sorte porque consegui fazer uma série de discos e sucessos. Mas a gente pegou a migração do mercado do vinil para o CD. A digitalização dos conteúdos. Depois, a agregação da imagem na década de 90, os clipes, o surgimento do DVD. Porém tem sido difícil sobreviver. Eu acho que devido ao nível que a gente conseguiu colocar assim, de músicas que marcaram a vida das pessoas, naquela época, acabei sobrevivendo. Mas é de maneira precária, eu confesso. Esse afastamento da mídia é natural. A mídia cultua a juventude, a beleza, o esplendor dos 20 anos, dos 30 anos. Aí depois, sempre há um declínio.
Como alguns artistas conseguem sobreviver ao tempo?
A não ser para alguns, como Caetano, Gil, que já estão tombados pelo patrimônio histórico devido à geração política que eles têm. A minha geração é precária. A gente teve uma precariedade maior, mas eu acho que tem que encarar com naturalidade. Outros gêneros musicais vieram satisfazer outros nichos no Brasil, como o sertanejo, que é uma coisa do agronegócio. Houve uma democratização do consumo no Brasil. Muita gente excluída passou a ser incluída. O negro também passou a ter o seu espaço. É muito complexo que eu quisesse manter a mesma presença de mídia, além do que também conta minha idade.
Como compositor você é um dos que tem mais direitos autorais. Você conseguiu ganhar dinheiro com isso?
Eu ganhei pouco. Se você olhar comparativamente em relação aos compositores sertanejos, eles tiveram um resultado mais expressivo que a minha geração. Quanto mais for para trás, se você pegar a Bossa, o pessoal não ganhou nada. Acho que ainda existe essa possibilidade para quem permanece nesses gêneros de massa. O pessoal está ganhando bastante dinheiro. A supremacia que a minha época teve foi em quantidade de músicas de sucesso, o que hoje é mais difícil conseguir.
Você fez muitas músicas que entraram nas trilhas sonoras de novelas, que até hoje são lembradas. Fale um pouco sobre esse tipo de trabalho, que de certa forma também marcou a vida de muitas pessoas?
As trilhas sempre tiveram muita força lançadora. Peguei novelas importantes, que tiveram grande repercussão na época. A principal delas para mim foi ''Dancin'Days'', com a música ''Amanhã'', um dos principais temas da novela, que foi um marco da TV e na minha carreira. Quer dizer, uma coisa consistente, uma música que tem uma mensagem transcendente. As minhas músicas marcaram porque eu tinha um estilo muito pessoal, o meu piano, essas características de melodia. Fico feliz que marcaram a vida de alguém. Ainda hoje, essas músicas, como ''Amanhã'' e ''Planeta Água'' têm transito entre crianças nas escolas e acabam marcando as novas gerações. Fico feliz de ter tido essa presença na vida das pessoas.


