Uma mesa para Humphrey Bogart, Marilyn Monroe, Mae West e Rita Hayworth em comemoração às três décadas de Valentino, o sedutor bar que ainda faz a noite londrinense se sentir uma diva. O senhor Valentino sabe como tratar bem essa mulher, a noite, e por isso, às vésperas do ano em que completará 30 anos, a celebração é dela, que não seria a mesma sem a companhia de seu amante mais charmoso.
Uma paixão a dois, a três e aos milhares de frequentadores. Um destino previsto nas cartas jogadas pela história do bar - tão mitológica, quanto a antiga casinha onde o Valentino funcionou na Av. Bandeirantes até a mudança de endereço em 2006. ''Nos fundos da antiga casa morava uma cigana, que começou a reclamar do barulho. José Antônio Theodoro, o primeiro dono do bar, convidou a mulher para ler cartas num dos cômodos. Me lembro dela toda vestida, lendo o destino das pessoas. Sempre convivemos com o fantasma do bar fechar mas, um dia, ela disse para a gente não se preocupar, que já tinha amarrado as quatro pontas do lugar. Nós sempre nos prendemos a essa história para não aceitar uma mudança e, por incrível que pareça, a velha casinha acabou sendo levada para o novo Valentino'', conta Valdomiro Chammé, um dos atuais quatro donos do Valentino.
Na mesa reservada para Bogart, Monroe, West e Hayworth há sempre um lugar e uma reverência ao emblemático diretor teatral londrinense José Antônio Theodoro, um apaixonado por cinema que criou o bar por ocasião de uma festa. Com eles se sentam outros personagens do Valentino.
Maryeva Mendonça, que sempre se apresentava no bar acompanhada de sua personagem Maebe Camargo; Jair Bala, o mais genuíno representante da boemia londrinense, e a jornalista Nicéia Lopes, uma grande defensora das causas ganhas e perdidas pelo Valentino, fazem parte do triângulo de muitos lados desse relaciomento do bar com a cidade. ''Uma das épocas mais loucas do Valentino foi a do Pino (Giuseppe Noiacono), um dos ex-donos. Um período em que a gente tinha mais liberdade. As pessoas ficavam mais à vontade e podiam demonstrar afeto em público. Era o único bar onde a gente tinha essa liberdade. É incontestável que a alma do lugar eram os garçons: o Bruno, Juninho, Preá e Márcio'', afirma o chef e professor de gastronomia, Djalma Araújo. Os dois últimos citados hoje são sócios do bar. Araújo fez parte do grupo teatral Delta, criado por Theodoro.
Para o diretor de teatro Sílvio Ribeiro, o Valentino sempre foi uma porta aberta aos artistas londrinenses. Espetáculos marcantes, como ''Lua Cheia de Veneno'', do Chaminé Batom, coro cênico do qual Ribeiro fez parte, também tem uma mesa reservada para as comemorações dos 30 anos do Valentino ao lado do antológico grupo londrinense Proteu e do dinamarquês Odin Teatret, que também se apresentaram na casa. ''Ainda hoje você entra na casinha e sente o clima do Valentino. Porém, muitas coisas mudaram. As gerações mudaram e não dá para esperar que a noite seja a mesma. Sinto saudade das noites mais calmas no bar em que a gente ia para jantar o famoso macarrão'', comenta Ribeiro.
Há 17 anos Chammé é um dos que comandam os destinos do Valentino, lembrando que a grande mudança do trintão foi física, ganhando um novo 'corpinho' com a mudança de endereço. ''Acho que o bar ficou mais formal, principalmente o acesso, já que os clientes precisam se cadastrar. Isso tem um lado ruim, mas contribui para proteger a clientela'', afirma Chammé, que guarda algumas surpresas para as comemorações no ano que vem.
O Valeco, apelido que as novas gerações deram ao bar, já tem um esboço do que será a festa. ''A gente queria resgatar eventos interessantes para o Valentino. Queremos trazer músicos antigos e que fizeram a história do bar. É muito doido o que acontece aqui. Semanalmente são seis eventos e 340 no ano. Uma programação que nunca se repete. Vamos tentar criar uma espécie de cooperativa de músicos ao redor do bar'', planeja Chammé, enquanto a noite londrinense, uma diva, ainda se deixa seduzir por Valentino.

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