Como brincantes livres, leves e soltos, os bailarinos do Ballet de Londrina deverão surpreender o público com a montagem "Sem Eira Nem Beira" que estreia hoje e amanhã, às 20h30, na área de construção do Teatro Municipal. No palco improvisado no local, linóleo em tom terroso, uma referência direta à nossa terra vermelha, que ganha de presente mais essa montagem em comemoração aos 80 anos da cidade. Devido às arquibancadas ainda sem assentos, a organização solicita que as pessoas levem almofadas para maior conforto durante a performance. Vale ressaltar que o acesso ao local deverá ser feito pela Praça de Alimentação do Shopping Boulevard. Para cada dia serão liberados 600 convites, que devem ser retirados com antecedência.
Ao som da rabeca, o espetáculo começa sob as bênçãos de Nossa Senhora da Conceição – padroeira do Recife, que fica em Pernambuco, estado-natal do diretor Leonardo Ramos – que será estilizada em obra do artista plástico Edson Massuci e exposta sob pedestal que será levado ao palco na primeira parte do espetáculo - o que acabou se tornando quase que uma homenagem ao escritor Ariano Suassuna (falecido em julho deste ano) e o seu importante Movimento Armorial, que abarcou linguagens que vão das artes plásticas à música, resgatando o valor da cultura popular.
Em uma montagem cheia de energia, bastante solar, é empolgante ver a evolução dos movimentos que dialogam com manifestações populares como o frevo, o maracatu, o caboclinho, o cavalo marinho e as quadrilhas, realmente conseguindo transmitir a quem vê essa sensação de estar no meio de uma grande festa nordestina ao som da trilha do primeiro disco do Quinteto Armorial.
Considerada por Ramos uma de suas montagens mais difíceis, ela é um marco do exercício de se reinventar. "Essa é uma busca constante e, após a nossa última montagem ('Sagração da Primavera'), achei que já havia um domínio da técnica e era preciso sair da zona de conforto", afirma o coreógrafo, que há 21 anos está à frente da premiada companhia.
Conhecida nacionalmente por sua linguagem contemporânea baseada em novos apoios e em eixos de sustentação não convencionais, que privilegiam a horizontalidade, desta vez a companhia também valoriza os movimentos verticais, funde o clássico e o popular e apresenta uma "desorganização proposital" na coreografia, que remete à dança de rua do Nordeste, permeada de religiosidade e festividade.
Outra novidade é que pela primeira vez a montagem de Ramos conta com cocriação de Marciano Boletti, atual ensaiador e bailarino mais antigo da companhia. Aliás, é dele a performance solo que remete às danças circulares e hipnotizadoras dos dervixes como uma forma de lembrar da influência da cultura árabe nas manifestações artísticas nordestinas. Merece menção também os belos figurinos criados por Raphael Magalhães, que valoriza os tecidos e rendas de algodão.
Aos 52 anos, Ramos já ventila a possibilidade de se aposentar e vê nessa montagem a oportunidade de por meio do seu trabalho também levar o público a perceber como o Teatro Municipal merece ser concluído e ser visto como uma "obra para a cidade, para todos e não apenas para a área de cultura". "Eu fiquei impressionado com a grandiosidade daquele espaço quando fui lá pela primeira vez e daí veio a ideia de mostrar isso às pessoas, como uma forma delas perceberem a importância desse espaço e, de certa forma, resgatarem o espírito de pujança que os nosso pioneiros tiveram em transformar e investir em obras que trouxeram tantos benefícios à cidade", ressalta.

Nome instigante
Idealizado no ano passado, o novo espetáculo do Ballet de Londrina quase foi "batizado" de "Balé Armorial" - que Ramos chegou a assistir sua primeira e única apresentação em Recife - ou "Pernambuco". "Acabei achando que era muita pretensão minha dar esses nomes e optei pela expressão 'Sem Eira Nem Beira', que vem ao encontro da proposta e fala de pessoas livres, soltas, sem amarras, sem limites nem dentro nem fora", conta.
Ditado de origem portuguesa, ganhou a boca do povo como indicativo de alguém que é pobre e simples, sem nenhuma ostentação, mas também designa um modo de ser. E como explicado no programa que será entregue ao público no dia da apresentação, a eira é a estrutura que une o teto às paredes externas da casa e a beira é o que também se chama beiral, o que dá acabamento ao telhado. Uma casa sem eira nem beira é um lugar modesto, porém é uma moradia aberta, livre para a entrada e saída das melhores coisas de quem a habita.

Serviço:
Sem Eira Nem Beira – Estreia do Ballet de Londrina
Quando – Hoje e amanhã, às 20h30
Onde – Na construção do Teatro Municipal/Marco Zero (o acesso ao público será pelo Shopping Boulevard, na portaria da Praça de Alimentação)
Quanto – Gratuito (ingressos devem ser retirados com antecedência)
Pontos de retirada de ingressos – Funcart (R. Souza Naves, 2.380) e na loja Shop Ballet (R. Pio XII, 64 – loja 3). Cada pessoa poderá retirar, no máximo, dois ingressos. Serão disponibilizados 600 convites para cada dia de apresentação

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