TODA A DELICADEZA DO BUTOH
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de junho de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
A loucura extrema da loucura: a vida renasce como uma nova vida através da morte. Eterna vida... (Kazuo Ohno)
O butoh, uma vertente da expressão oriental que combina dança e teatro, ainda é pouco difundido no Brasil e não possui uma linha definida no Ocidente. Mas em Ibiporã (14 quilômetros de Londrina), uma companhia vem desenvolvendo há dois anos um trabalho de pesquisa sobre a proposta criada por Tatsumi Hijikaa (1927-1986) e pelo mestre Kazuo Ohno, de 95 anos, em meados dos anos 50. A Gorrión Companhia de Butoh faz hoje a pré-estréia do espetáculo solo No Meio da Paulista, às 20h30, no Cine-Teatro Padre José Zanelli, em Ibiporã.
Sob direção de Paz Aldunate, a bailarina Solange El Kadri apresenta coreografias que colocam o homem no foco de sua consciência. O espetáculo é centralizado num momento especial de uma pessoa que se encontra em plena Avenida Paulista, na hora do rush.
O segundo trabalho da Gorrión, conta a diretora, intenciona passar para o público o momento em que essa pessoa perde o chão e percebe estar em igualdade com o universo. O espectador passa a ver o que acontece dentro dela, explica. Mas tudo é mostrado de forma abstrata, avisa Paz.
Para a bailarina Solange El Kadri, o objetivo do trabalho é estabelecer uma relação com o público. A tentativa é que o espectador entenda a linguagem ou fique com aquilo na cabeça, observa. Cada pessoa vai se posicionar de acordo com sua consciência. O espectador pode não entender racionalmente, mas no fundo tem o seu próprio entendimento.
A experiência tem revertido para bons resultados. A companhia da Fundação Cultural acaba de voltar do 12º FestDança, em São José dos Campos (SP), onde Solange El Kadri conquistou o 3º lugar na categoria solo feminino com a coreografia O Lírio (fragmento do espetáculo).
No espetáculo de 35 minutos, a bailarina apresentará coreografias que acentuam a caracterização do butoh como um movimento muito detalhado. Trabalhamos com tudo o que se mexe: além do corpo, o pensamento, a fala, a música, o olhar, detalha Solange. A diretora observa que o butoh promove o reencontro do bailarino com o próprio corpo. Com ele, a pessoa se descobre.
Caracterizado pelo seu expressionismo, o butoh é uma dança dramática executada com grande economia de gestos e uma lenta e exasperante dinâmica, o que requer uma técnica corporal preciosa. Paz Aldunate, chilena radicada no Paraná há 16 anos, salienta que quem faz o butoh é o butoísta e não o diretor. Eu aplico exercícios básicos de energia, lentidão, silêncio, movimento total, distorção de tempo e kata (repetição). A criação é com a bailarina. Solange El Kadri conta que nunca vai para o palco com a coreografia completa. A dança sempre vai nascendo durante a apresentação e passa por uma relação de morte e ressurreição. Quem assiste uma vez não vai ver a mesma coisa em outra apresentação. O tempo nunca é o mesmo.
Um espetáculo do mestre Kazuo Ohno, apresentado em Londrina em 1992, foi o impulso que Paz Aldunate precisou para criar uma companhia do gênero. Eu já trabalhava expressão corporal e biodança com alunos da Fundação Cultural. Mas procurava algo que não sabia bem o que era, uma linguagem que se ajustasse à minha forma de pensar. Aí vi o Kazuo Ohno e comecei a investigar e fazer pesquisas, lembra. A estréia da Gorrión como companhia de butoh aconteceu em agosto de 1999. O primeiro espetáculo foi Alpha.
Depois da pré-estréia, Solange El Kadri se apresenta em julho no Festival de Dança de Campo Mourão (onde Paz Aldunate também ministra uma oficina de butoh) e segue para Cascavel, Presidente Prudente e Puerto Iguazú (Argentina).
No Meio da Paulista, espetáculo da Gorrión Cia. de Butoh. Pré-estréia: hoje, às 20h30, no Cine-Teatro Padre José Zanelli, em Ibiporã. Direção: Paz Aldunate. Bailarina: Solange El Kadri. Figurinos: Paz Aldunate e Solange El Kadri. Pesquisa musical: Paz Aldunate. Operador de som: Emerson Betiati. Iluminação: Júlio Lopes. Promoção: Coordenação de Artes Cênicas da Fundação Cultural de Ibiporã. Os convites podem ser retirados na Fundação Cultural.


