A bossa nova velha de guerra mantém filhos fiéis espalhados pelo mundo. A cantora Wanda Sá, que se apresentou há dois meses em Londrina, segue ao pé da letra a cartilha rítmico-harmônica do movimento.
Com a carreira retomada no Brasil, especialmente após a recente reedição de seu primeiro disco (''Wanda Vagamente'', de 1964), ela acaba de sair do estúdio com um novo trabalho a tiracolo: o álbum ''Domingo Azul do Mar'', produzido pelo japonês Kazuo Yoshida e masterizado no Paradise Records, em Tóquio.
As conexões nipônicas não são meras coincidências. Wanda é aclamada no outro lado do mundo, onde seu título de estréia alcançou o segundo lugar da parada de world music. No novo repertório, ela parece aspirar também a uma renovação de fãs no mercado norte-americano regravando com sotaque bossa e na língua original as canções ''It's too late'' (sucesso na voz de Carole King nos anos 70) e ''What a Wonderful World'' (um dos últimos hits de Louis Armstrong).
Ela conheceu os Estados Unidos em meados dos anos 60. A exemplo dos colegas de batidas sincopadas, foi para tocar num show e acabou se estabelecendo. Na ocasião, viajou com o grupo de Sérgio Mendes para se apresentar no circuito universitário. Depois de cantar numa boate em Los Angeles, chamou a atenção de Dave Cavanaugh, produtor de Frank Sinatra e Nat King Cole.
Foi o que bastou para gravar três discos. Depois, voltou ao Brasil fazendo shows com Baden Powell, Vinicius de Moraes, Miéle, Luis Carlos Vinhas e Bossa 3. Ao se casar com Edu Lobo, com quem viveu 10 anos, decidiu largar os palcos para se dedicar à maternidade e a dar aulas de violão. Só retomou as atividades profissionais no fim da década de 80 ao reengatar a parceria com Roberto Menescal.
De lá para cá, gravou discos que nunca chegaram ao grande público. ''Domingo Azul do Mar'' pode ser um empurrão na carreira. No novo disco, a cantora reitera leveza pinçando do baú composições como ''Ciúme'' (de Carlos Lyra), ''Melancolia'' (Luiz Eça e Ronaldo Bôscoli), ''O Amor que Acabou'' (Chico Feitosa e Luis Fernando Freire), ''Tetê'' (Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli), ''Nanã'' (Moacir Santos e Mário Telles) e a própria faixa-título.
Da safra recente, ela garimpou ''Jobiniando'' (Martinho da Vila e Ivan Lins) e ''Sabedoria'' (Roberto Menescal e Abel Silva). Menescal, com quem fez o show londrinense em agosto, não limita sua participação no disco como autor colaborando também na direção musical, nos arranjos, na voz e no violão. O acompanhamento intimista conta ainda com Gilson Peranzetta ao piano, Adriano Giffoni no baixo e Marcio Bahia na bateria.
Wanda não infringe regras obedecendo aos padrões clássicos da bossa, da qual foi a musa da segunda geração, aquela formada por Marcos Valle, Edu Lobo, Francis Hime e outros ilustres. Cantora cult, com alguns discos obscuros disputados em sebos e importadoras, Wanda Sá vai aos poucos levantando vôo outra vez.

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