‘‘Temos de filmar mais a gente das nossas cidades. Desta forma, podemos mostrar como somos lindos, e consequentemente, desencadear uma defesa do que é nosso. O trabalho da imagem defende os valores culturais e pessoais.’’ Esse entusiasmo vem da premiada cineasta brasileira Tizuka Yamasaki, que esteve no último final de semana na cidade de Faxinal do Céu, Sudoeste do Estado, ministrando uma palestra sobre o cinema nacional, durante o Encontro dos Secretários Municipais de Cultura.
Entre os projetos que estão sendo desenvolvidos pela cineasta estão cinco documentários para os 500 Anos de Descobrimento, a montagem de uma escola técnica de cinema em Foz do Iguaçu, e o início das filmagens de Gaijin II, previsto para setembro.
Uma encomenda do ministro do Esporte e do Turismo Rafael Greca de Macedo, os documentários, de dez minutos cada, vão ficcionar e reconstituir o Brasil antes do Descobrimento; a mestiçagem do nosso povo; os jesuítas e os bandeirantes; os negros africanos do ciclo do ouro e do açúcar; e o Brasil dos imigrantes. Os trabalhos para esses documentários estão em fase de pesquisas, mas a diretora já tem em mente algumas locações como Prudentópolis, no Paraná.
Além desses projetos mais imediatos, Tizuka vai ainda dirigir duas histórias de personagens paranaenses: Cabeza de Vaca, que primeiro vislumbrou as Cataratas do Iguaçu; e a trajetória do Barão do Cerro Azul, que doou sua própria vida em benefício dos paranaenses.
Mas Tizuka está próxima de realizar um de seus grandes sonhos e com cenário paranaense. Trata-se da uma escola técnica de cinema, a ser montada na vila de Itaipu. O projeto já foi apresentado à secretária da Cultura Lúcia Camargo e ao governador Jaime Lerner e a sua viabilização está sendo analisada.
‘‘Podemos, além de formar profissionais, fomentar o turismo da região. As imagens das Cataratas, por exemplo, podem ser doadas para o mundo todo. A população local pode participar contando suas histórias familiares para participar de um concurso. As melhores virariam filmes. As pessoas desenvolveriam seu poder criativo e teriam suas vidas contadas em filmes’’, adianta entusiasmada. ‘‘Me propus a ficar dois anos no Paraná, para fazer o Gaijin II e implantar essa escola.’’
A escola de cinema usaria os galpões de Itaipu e os investimentos poderiam ser feitos aos poucos. ‘‘Se fôssemos pagar tudo, gastaríamos cerca de R$ 10 milhões, mas este custo pode ser drasticamente reduzido. Por tratar-se de uma escola, as empresas doam com mais facilidade equipamentos de fotografia e de cinema’’, reconhece.
Para o Gaijin II, Tizuka já tem garantida quase a metade do orçamento de R$ 4 milhões. As locações serão em Foz do Iguaçu, Curitiba e no Norte do Estado. Gaijin II conta a saga de uma família de dekasseguis, em três gerações. O roteiro trata de uma família que sai do Paraná e vai para o Japão com a intenção de recuperar suas raízes. Lá descobrem que querem voltar. ‘‘Essa é a história de milhares de pessoas. Quase todo mundo sonha em sair da sua cidade e depois descobre que quer voltar.’’
O que deixa Tizuka incomodada é o tempo gasto com a captação de recursos para as suas produções. ‘‘Tenho pedido a ajuda dos prefeitos porque esse trabalho é muito lento e enquanto estou fazendo a captação não estou filmando. O que sei fazer é dirigir filmes, não trabalho na área financeira. Isso me deixa angustiada. Mas se eu não saio e ponho uma equipe trabalhando na captação de recursos, não acontece nada. Deveria haver um fundo que gerenciasse tudo isso.’’
Ela afirma que cada prefeito pode descobrir uma forma de ajudar. Por exemplo, em Foz, Tizuka vai fazer uma permuta com os hotéis que estão devendo impostos para o município. Assim, fica garantida a estadia e a alimentação. Outros, podem ceder carros, providenciar autorizações para usar a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, etc. ‘‘Basta que a cidade queira contribuir.’’ As empresas podem também comprar certificados do audiovisual. ‘‘A cidade estaria ganhando em termos de imagens, de mídia, de prestígio, entre uma série de coisas. Quantas vezes as pessoas não querem conhecer um local que viram num filme?’’
Tizuka optou pelo Paraná para as gravações de Gaijin II por ter gostado muito da região do Norte do Estado, quando esteve em Rolândia, numa festa, há algum tempo. ‘‘Além disso, ouvia histórias que meu avô contava e uma delas falava da terra vermelha. Meu avô contava que uma vez entrou num trem com meus tios e as pessoas iam morrendo no caminho por causa da febre amarela. Criei a imagem na minha cabeça de um Paraná onde as pessoas iam com muita esperança à procura de trabalho na terra vermelha, mas que também podiam morrer nessa trajetória. Isso ficou na minha memória como um lugar muito forte.’’
Em Londrina e em Assaí, Tizuka conheceu a comunidade nikkei, onde os velhos japoneses vão passando para seus descendentes a liderança na condução da comunidade, a manutenção da tradição cultural e ao mesmo tempo estimulando a integração. ‘‘Isso está muito forte ainda no Paraná, mas vai se fragmentando até acabar. Em Assaí conversa-se o registro da imigração japonesa e isso precisa ser tombado para as gerações futuras. Em São Paulo já não existe mais.’’
A escolha de Foz do Iguaçu deve-se ao fato da cineasta ter chorado quando viu as Cataratas pela primeira vez. ‘‘Já vi coisas lindas na minha vida, mas quando passei de barco embaixo das Cataratas pensei: isso é um presente de Deus. E imediatamente questionei, como é que o Brasil não conhece? Por que o brasileiro não se desloca para experimentar essa emoção que estou vivendo? Preciso mostrar isso. Os turistas japoneses quando se deparam com tudo aquilo ficam numa postura de devoção. É um santuário que o brasileiro não conhece. Espero que o filme possa despertar uma reflexão e que as pessoas vão lá emocionar-se, como eu. Mas não basta a paisagem bonita é preciso a história que gira em torno. Isso é a magia do cinema.’’ReproduçãoTizuka Yamasaki: documentários sobre os 500 anos do Descobrimento vão destacar Cabeza de Vaca, o primeiro europeu a vislumbrar as Cataratas do IguaçuGaijin II e uma série de documentários a ser realizada por Tizuka Yamasaki, servirão para realçar aspectos culturais do Paraná

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