TRECHOS DO LIVRO

Foi assim que pude ler meu primeiro conto em letras impressas. E li escondido em meu quarto, com o coração desembestado e num fôlego só. Em cada linha ia descobrindo o poder demolidor da letra impressa, pois o que eu havia construído com tanto amor e dor como uma submissa paródia de um gênio universal revelou-se então para mim como um monólogo arrevesado e inconsistente, que a duras penas aguentava de pé graças a três ou quatro frases consoladoras.(Sobre a publicação do primeiro conto)

- - -

O importante era a carga emocional que eu arrastava sem saber, e que tinha me esperado intacta na casa de meus avós. A partir do primeiro passo nas areias ardentes do povoado, eu tinha percebido que o meu método não era o mais feliz para contar aquele paraíso terreno de desolação e nostalgia, embora tenha gasto muito tempo e trabalho para encontrar o método correto.(Sobre o método de escrita)

- - -

Comecei uma nova correção, sobre a conclusão de meus amigos. Eliminei um longo episódio da protagonista que contemplava do corredor de begônias um aguaceiro de três dias, que mais tarde transformei no ''Monólogo de Isabel vendo chover em Macondo''. Quase vinte anos mais tarde, quando achava que estavam esquecidos, partes desses fragmentos me ajudaram a manter as nostalgias ao longo e ao largo de ''Cem Anos de Solidão''. (Sobre o primeiro romance, ''O Enterro do Diabo'')

- - -

O trem fez uma parada numa estação sem povoado, e pouco depois passou na frente da única fazenda bananeira do caminho que tinha o nome escrito no portal: Macondo. Essa palavra tinha chamado a minha atenção desde as primeiras viagens com meu avô, mas só depois de adulto descobri que gostava de sua ressonância poética. Nunca a ouvi de ninguém, nem sequer me perguntei o seu significado. Já a tinha usado em três livros como nome de um povoado imaginário, quando soube numa enciclopédia qualquer que é uma árvore do trópico parecida à paineira, que não produz flores nem frutos, e cuja madeira esponjosa serve para fazer canoas e esculpir utensílios de cozinha.
(Sobre a origem da palavra Macondo)

- - -

Li Ulisses, de James Joyce, aos pedaços e tropeços até que minha paciência acabou. Foi uma temeridade prematura. Anos depois, já adulto e domado, me dei ao trabalho de relê-lo a sério, e não apenas foi o descobrimento de um mundo próprio que jamais suspeitei existir dentro de mim, mas também uma ajuda técnica incalculável para a liberdade da linguagem, o manejo do tempo e as estruturas dos meus livros (...) Já ao terminar a leitura de ''A Metamorfose'', de Kafka, ficaram em mim os anseios irresistíveis de viver naquele paraíso alheio.(Sobre as principais influências literárias)

mockup