TITIOS SATANISTAS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 27 de setembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Na capa, uma bruxa. Dentro, um vocalista urrando heresias satanistas. Três décadas depois de seu lançamento, o álbum de estréia do Black Sabbath ainda assombra permanecendo entre os mais importantes da história do rock.
A coletânea dupla The Best of Black Sabbath (Abril Music), que chega agora ao Brasil, contém cinco faixas daquele trabalho e mais uma compilação extraída de gravações posteriores. É uma introdução fundamental para quem está se iniciando no universo da guitarra distorcida.
Sabbath inventou o heavy metal. Sua influência pesa tanto sobre Iron Maiden, Nirvana e Sepultura quanto sobre as vertentes extremas do gênero como death e black metal. Além da coletânea, as lojas estão recebendo o tributo Nativity in Black II (Virgin) e o álbum Readless Cross (Virgin).
O grupo continua com a reputação intacta, ainda que o culto se restrinja à primeira fase, aquela dos álbuns clássicos Black Sabbath (1970), Paranoid (1970), Master of Reality (1971), Black Sabbath Vol. 4 (1972), Sabbath Bloody Sabbath (1973) e Sabotage (1975).
Não por acaso, a formação original costuma se reunir a cada ciclo de baixa criatividade. Foi assim no show Live Aid em 1985, depois numa apresentação que marcaria a despedida (não cumprida) de Ozzy Osbourne dos palcos em 1992 e também numa turnê mundial realizada há dois anos. Sabbath nasceu em Birminghan, cidade industrial da Inglaterra.
Foi fundado no final dos anos 60 por Ozzy, Tonny Iommi, Geezer Butler e Bill Ward. Na época, foi subestimado pela crítica, que estava mais interessada no idílio psicodélico e nos devaneios instrumentais do rock progressivo. Em contraste, o Black Sabbath cantava o pesadelo combinando letras macabras e lentidão distorcida.
A banda viveria momentos de glória até 1975, sucedidos depois por batalhas de egos e um interminável rodízio de componentes. Em meio às turbulências, marcas registradas da banda como a sonoridade mórbida, o andamento arrastado e a guitarra e baixo graves foram deixadas de lado em favor de clichês adotados por seus próprios seguidores.
Ozzy foi o primeiro a abandonar o barco, em 77, abrindo vaga nos vocais para uma sucessão de substitutos que incluiu Ronnie James Dio, Ian Gillan e Tony Martin. Durante o entra-e-sai, até Rob Halford (ex-Judas Priest) ensaiou com o grupo preferindo depois montar o Fight. Ward saiu em 81 por problemas de alcoolismo e retornou dois anos depois. Butler tirou o time em 84, retornou em 92, debandou de novo em 94 e voltou em 98.
Tonny Iommi foi o único que segurou as pontas. Genial criador de riffs, ele aliás vai lançar um novo disco-solo mês que vem com participações de Ozzy, Henry Rollins, Dave Grohl, Phil Anselmo, Billy Corgan, Billy Idol e Ian Astbury. A coletânea The Best of Black Sabbath, que chega agora ao país, privilegia o melhor período do grupo em suas 32 faixas.
O material foi remasterizado digitalmente. As músicas seguem ordem cronológica, respeitando também a posição em que aparecem nos álbuns originais. Entre os clássicos garimpados figuram Black Sabbath, N.I.B, The Wizard, Snowblind, Sympton Of The Universe, Iron Man, Supernaut, Sabbath Bloody Sabbath, Paranoid, War Pigs, Fairies Wear Boots e Children Of The Grave.
Boa parte dessas faixas aparece no CD-tributo Nativity in Black II, onde o grande destaque é a versão brutal de Soulfly para Under the Sun enquanto que a decepção fica por conta do Machine Head em Hole in the Sky. Perto da coletânea, o tributo soa indigesto, parecendo um adereço dispensável. O disco traz participação ainda de nomes como Pantera (numa reinterpretação fiel de Electric Funeral), Megadeth (também bem-comportado na regravação de Never Say Die) e Busta Rhymes (numa abordagem rap de Iron Man).
Ozzy participa acompanhado pela banda Primus em N.I.B. O álbum Headless Cross, outro lançamento da temporada, traz os vocais melódicos de Tony Martin apagando qualquer vestígio do sinistro Sabbath dos velhos tempos. É pavoroso, mas no mau sentido.


