Paulo WolfgangCinema lotado em Londrina: todos querem ver a catástrofe do século embalada pelo amor romântico do par central do filmeQuarta-feira, 13 horas. A fila em frente ao Cine Vila Rica, no centro de Londrina dobra o quarteirão. Dezenas de pessoas enfrentam o sol escaldante para ver a catástrofe de camarote. Movidas pelo marketing dos custos da produção e pela atração do ser humano pela morte e pelo amor, centenas de pessoas lotam as salas de exibição em Londrina para assistir ‘‘Titanic’’.
Tecnologia, tragédia, romance e um marketing exaustivamente trabalhado. Uma combinação perfeita para produzir o fenômeno de bilheteria, que em Londrina, pelo menos, acontece mesmo às quartas-feiras, quando o preço do ingresso é reduzido pela metade.
Na fila as pessoas se preparam para chorar. A maioria quer assistir ao filme justamente para isto: chorar. Choram pelo amor puro e explosivo que naufraga junto com o luxuoso transatlântico. Choram pelas 1.200 pessoas que morrem afogadas ou congeladas em alto-mar.
O público se divide ontre o romance e a tragédia. Alguns querem ver uma história de amor, estão fartos de ver a tragédia nua e crua no dia-a-dia. É o caso da auxiliar de enfermagem Cleide Rodrigues, 31 anos. ‘‘Vim para assistir um romance. Tragédia tem na vida real’’, afirma.
A adolescente Camila Saccheto, 14 anos, não queria fantasia. ‘‘Quero ver uma história real’’, afirma. Já a mãe de Camila, Maria do Rosário Soares, 38 anos, dona de casa, assistiu à primeira versão de ‘‘Titanic’’ e estava empolgada para ver a mesma tragédia sob os panos de fundo de um romance. ‘‘Tenho certeza que este vai ser bem melhor’’, afirma.
A convicção ela tirou dos jornais e televisão. ‘‘Que estão falando muito sobre este filme. Dizem que é o mais caro da história de Hollywood (US$ 200 milhões). Deve ser bom’’, conclui. O autônomo Edio Beasi, 59 anos, foi em busca de tragédia. Outros filmes neste estilo já foram exibidos, mas nenhum foi tão comentado pelos filhos de Edio. ‘‘Por isto vim assistir’’, diz.
Angela Neide Barbosa, 35 anos, dona de casa, esperava assistir um filme poético. ‘‘Mesmo em se tratando de tragédia, há poesia’’, acredita. O poeta, escritor e tradutor, de São Paulo, José Paulo Paes é categórico: ‘‘Existe mais poesia em um filme feito no jardim de sua casa’’, afirmou em entrevista à Folha, pelo telefone.
Ele se recusa a ver o filme. ‘‘É um fato escandaloso explorar comercialmente uma tragédia como a do Titanic’’, afirma. O fenômeno que leva as pessoas aos cinemas é puramente comercial, segundo ele.
O escritor Afonso Romano Santana, do Rio de Janeiro, também em entrevista à Folha por telefone, não só assistiu ao filme como levou a família toda. Mas ele também não vê poesia em ‘‘Titanic’’. ‘‘É um filme de fortes emoções, mas não é poético’’, analisa.
O crítico de cinema Carlos Eduardo Lourenço Jorge atribui o fenômeno de bilheteria de ‘‘Titanic’’, entre vários motivos, à ausência de outros filmes fortes. ‘‘Nada do que se lançou neste final de ano foi comparável à ‘‘Titanic’’ em termos de recursos, badalação, mídia’’, afirma. ‘‘O filme valeu-se da falta de apelos de grandes produções’’.
‘‘Titanic’’ apresenta ainda, segundo Carlos Eduardo, um roteiro inteligente para aquilo que se propõe: ganhar dinheiro e não fazer feio diante da crítica. ‘‘Tem um drama romântico bem feito durante as primeiras duas horas, com pequenos acenos de uma catástrofe por vir’’, diz. Segundo ele, do ponto de vista de marketing de cinema esta é uma fórmula de sucesso.
Romance e tragédia temperados com alta tecnologia são um apelo irresistível para o público. A catástrofe do transatlântico é transmitida com realismo graças à tecnologia. A mesma que provocou a tragédia em 13 de abril de 1912. O homem cria um transatlântico teoricamente impossível de afundar. ‘‘Nem Deus pode afundá-lo’’, diz o construtor do ‘‘Titanic’’ no início da viagem.
A leitura de estudiosos é de que o navio inaugurou a chamada era da tecnologia da catástrofe. A confiança do homem em sua ciência tecnológica acaba provocando a tragédia. A confiança era tanta que o transatlântico não possuía botes salva-vidas para todos os 2.200 passageiros.
Dois anos depois do naufrágio, em 1914, tem início a 1ªGuerra Mundial, em que a tecnologia também está a serviço da catástrofe, assim como na 2ªGuerra Mundial, anos mais tarde. Para o público de ‘‘Titanic’’, a tecnologia usada para mostrar a catástrofe torna o filme grandioso.
Na avaliação de Afonso Romano Santana o show de tecnologia em ‘‘Titanic’’ cria um jogo entre o real e o virtual. ‘‘O espectador quer saber como o resultado final foi obtido’’, afirma. Ao mesmo tempo em que o espectador sabe que o naufrágio é um fato real, ele sabe também que o que está passando na tela é mentira, embora a tecnologia dê a impressão de tudo ser muito real.
A receita infalível - romance, tragédia, efeitos especiais - divide opiniões de intelectuais, mas o público lota 213 salas de exibição no País movido pelo desejo de presenciar a morte e o amor retratados em uma produção grandiosa em termos de custos.

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