Se depender da cantora mineira Titane, a diversidade ritmada presente nas congadas não vão se perder no tempo. Ela foi buscar na tradicional manifestação popular – herança da comunidade negra do sertão de Minas Gerais – a fonte para o seu trabalho. Já gravou quatro discos (‘‘Titane’’; ‘‘Verão001’’; ‘‘Inseto Raro’’ e ‘‘Sá Rainha’’) com visível influência musical presente na festa dos congos, mas é em ‘‘Sá Rainha’’, seu mais recente trabalho, lançado há pouco mais de uma ano, que ela consolida essa característica. Parte desse repertório pode ser conferido hoje, em única apresentação que a cantora faz no Cabaré, programação musical do Festival Internacional de Londrina (Filo).
Titane bebe de fontes diversas, já gravou composições de Caetano Veloso, inéditas de Chico Cesar e até uma parceria de Leminski e Alice Ruiz, mas seu trabalho está calcado no resgate das tradições folclóricas. Começou a cantar no final da década de 70, com o grupo de música popular Mambembe. Foi quando gravou seu primeiro disco, ‘‘Mambembe’’, de produção independente.
A carreira começou a se consolidar com ‘‘Titane’’ (1986), que traz participação especial do grupo também mineiro Uakti. Em 1990, assinou contrato com a Eldorado, por onde gravou ‘‘Verão 2001’’, produzido por Zuza Homem de Mello e ‘‘Inseto Raro’’ (2000), resultado do show homônimo gravado no Teatro da Ópera, em Ouro Preto (MG), que teve concepção assinada pelo marido, o diretor João das Neves.
Mas a cantora não utiliza a pesquisa folclórica apenas na sua música, como produtora assina os discos ‘‘Vôo das Garças’’ (1992), do mestre violeiro Zé Côco do Riachão e ‘‘Os Negros do Rosário’’, registro do congado dos negros, resultado de uma gravação ao vivo durante uma festa em Minas.
Em ‘‘Sá Rainha’’ Titane interpreta composições calcadas na mais original viola caipira, mas também prova da criatividade de Edvaldo Santana e Ademir Assunção, o Pinduca, ambos com influências londrinenses. Trata-se de ‘‘Zenzider’’, faixa que abre o disco. ‘‘Sá Rainha’’ traz ainda participação do cantor e compositor Chico César. No disco, a cantora aproveita os ritmos do congado mineiro para dar uma interpretação peculiar a essas composições.
A congada é uma manifestação artística religiosa da população de descendência negra. Além de Minas, ainda pode ser vista também no litoral paranaense, ainda que raramente, já que os poucos grupos que a representam são cada vez mais escassos. É uma festa onde se representa a coroação de um rei Congo, por meio de muita música e dança. Para contar a história do rei, que deve ser interpretado por uma pessoa muito respeitada na comunidade, os grupos valem-se de pandeiros, triângulos, reco-reco, sanfonas, violas, atabaques e apitos. Uma diversidade de sons que Titane pegou emprestado, usou, abusou e deu certo.
O show de Titane precede a apresentação do pianista Hilton Ruiz e do saxofonista Chico Freeman, que mostram o autêntico jazz de influência caribenha no Cabaré. Certamente uma das noites que prometem no Cabaré, que encerra apenas no dia 30, com show da Cássia Eller.

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