Você acorda e não parece ser um novo dia. Pior: sabe que, ao final dele, não terá feito nada além de repetir uma rotina tediosa. De vez em quando, orgulha-se de uma boa ação, uma conquista ou de um trabalho bem-feito. Mas, ao deitar a cabeça no travesseiro, se dá conta de que nada disso durará até a posteridade. Do seu percurso até aqui, não trouxe nada que o salve do naufrágio inevitável do esquecimento?

Ainda bem que não é sempre que somos devastados por crises existenciais como essa, você pensa. Daí vai ao teatro Ouro Verde assistir a ''Tio Vânia (Aos que vierem depois de nós)'', texto atualíssimo (embora de 1897) de Anton Tchekhov em montagem desde já clássica do Grupo Galpão.

Da outra vez, eles trouxeram uma peça tão sensível e delicada, do jeito que você precisava. Mas agora eles te apresentam outra coisa: personagens em crise, presos a existências tão ásperas quanto insignificantes, até um final que deveria soar esperançoso mas lhe causa o oposto.

Que bom. Pois o papel da arte é mesmo o de colocar as pessoas em contato com a própria humanidade, mesmo que para isso seja preciso confrontá-las com aspectos desagradáveis de suas existências. Vá ao teatro, saia da peça desalinhado como se seu âmago tivesse sido desmontado e você não conseguiu reencaixá-lo direito de volta.

E pode dizer que não gostou do espetáculo por causa disso, não importa. Pois eu sei que, enquanto algumas cenas e situações ficarão martelando na sua cabeça durante dias, você estranhamente vai enxergar melhor os raros momentos de leveza dessa sua vida medíocre.

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