No final deste mês a editora 34 Letras distribui em todo o País o mais novo livro de Wilson Bueno, ‘‘Meu Tio Roseno, a Cavalo’’. A novela, que está no prelo, consumiu os últimos cinco anos do escritor – foi escrita e reescrita ‘‘seguramente umas 15 vezes’’. As diferentes versões tiveram desde volumosas 300 páginas até dez, e chegará ao público com ‘‘cento e poucas’’.
Haverá lançamento em Curitiba, com possibilidades de sessões de autógrafos em São Paulo e Rio, mas para o escritor ‘‘o que mais me honrou nesse livro é ter tido o privilégio do prefácio de Benedito Nunes’’. Bueno não regateia elogios ao professor que em sua opinião é ‘‘o maior crítico, ensaísta, filósofo, pensador da literatura em atividade. Ele é uma reserva, a grande voz do pensamento, da reflexão literária brasileira hoje’’.
Quanto à obra, pode-se dizer que era latente na vida do autor – ele cresceu ouvindo a família comentar sobre tio Roseno, irmão de sua mãe Maria Aparecida Rodrigues de Oliveira. Homem destemido, ainda muito jovem atravessou o Paraná ‘‘do Guairá (Wilson pronuncia com essa acentuação) às barrancas do Paranapanema’’. Morreu muito cedo, antes de Bueno vir ao mundo, mas o que ficou foi como uma sombra, a imagem de um desbravador varando noites e dias.
Aos 51 anos de idade o escritor está numa fase boa da vida, iniciada algum tempo atrás. Com esta obra faz sua estréia na 34 Letras, e deixa a Iluminuras, que lhe serviu de casa por vários anos e foi a responsável pela edição de ‘‘Mar Paraguayo’’. Enfim, profissionalismo tem dessas coisas – quem pode compra o passe do titular. Abaixo, a conversa de Wilson Bueno com a Folha 2.
Você goza do respeito dos editores, do público, da crítica. Tem prefácio assinado por Benedito Nunes e recebeu adiantamento da 34 Letras para concluir o livro. Como é esta passagem da sua vida?
Acho que é uma conquista e, ao mesmo tempo, sinto como um caminho natural. Uma consequência. Desde os 15 anos escrevo profissionalmente na imprensa, pelo menos uma vez por semana. O máximo de tempo que fiquei fora da imprensa, sobretudo a paranaense, foi coisa de ao invés de publicar três vezes por semana, passar para uma vez. Esse tipo de trabalho tem um certo sabor de provisoriedade, e, no entanto, não houve interrupção em 35 anos. É tudo consequência natural de uma obsessiva lavoura: sempre plantando e colhendo.
Como você classifica ‘‘Meu Tio Roseno, a Cavalo’’ dentro da sua obra?
‘‘Meu Tio Roseno’’ é um livro paradigmático na minha carreira, um livro muito referencial para mim. É a história de um tio mítico que faz um périplo a cavalo desde o Guairá, na divisa com o Paraguai, às barrancas do Paranapanema. O livro é composto de sete céus e seis entre-céus. Os entre-céus vão pontuando entre um céu e outro.
Seriam eles os dias dessa longa cavalgada?
Os dias, as evocações, a imaginação de nosso tio, a poesia da estrada, do caminho, a lua e o sol, as memórias, as rememórias, as relembranças que vão cabendo em cada céu e cada entre-céu – que é um céu que ainda não formou o céu seguinte e ainda diz muito do céu passado.
Supõe-se então que Tio Roseno vive num constante paraíso?
Nem sempre. Há grandes infernos porque o céu também os comporta. Tem passagens infernais de nosso tio, passagens de medo, de terror, de cômico. Benedito Nunes dividiu o livro em três partes, nesse agudíssimo ensaio de apresentação: o fantasmal, o erótico e o visageiro. Divide em três fases esse périplo ocorrido antes de eu ter nascido. Aconteceu antes do 13 de março de 1949, que é a data do meu nascimento. O texto traz a questão de existência e não-existência, da morte virtual. Tem uma pegada por aí, da não-existência, do não haver memória.
Esta é uma novela autobiográfica?
Tem muito de autobiográfico, porque meu tio era irmão de minha mãe, Maria Aparecida Rodrigues de Oliveira. Mas, como todo trabalho de criação, eu desdobrei isso, ampliei consideravelmente.
Há um tom sépia na narrativa?
Como você sabe disso? Ele é todo atravessado por um tom sépia, ocre. Vai do sépia mais apurado ao ouro barroso do ocre fulgurante. É um livro da terra, do verde, do Paraná antes do desmatamento, ainda virgem, sem asfalto, sem estradas, sem comunicação. Os lugares por onde o tio passa são sempre lugares originais, que ainda não foram tocados pela mão do homem. São trilhas. Não teve civilização. É só ele e o cavalo Brioso. Faço o relato inteiramente salpicado pelo guarani; e tem muito de portunhol. À medida que Roseno afasta-se do Guairá, a linguagem vai indo cada vez mais para o paulista, para os erres dobrados.
Como foi que Roseno o conquistou para chegar a merecer um livro?
Porque há na minha família, desde sempre, a memória desse tio que morreu muito jovem: 32, 33 anos. Então, aproveitei a narrativa para recolocar nossos mitos: o lobisomem, o boitatá, essas coisas todas que povoaram a infância da gente. As feirinhas do interior que vendiam coisas: tinha venda de gado, de cavalo, de ferradura.
O que vem a ser este livro para você?
Um rasgado gesto de amor pelo texto, pelo meu Estado, pelas minhas origens e, sobretudo, uma declaração radical de amor à literatura, ao gosto e ao gozo da escrita. Passei anos maturando, gestando, sonhando até que um dia resolvi escrever. Escrevi e reescrevi obsessivamente esse livro. De todos foi o mais reescrito – seguramente fiz umas 15 versões.
Agora que ele está no mundo, qual o seu procedimento íntimo? Há um desligamento para que ele siga seu caminho, é um peso que desfaz ou, muito pelo contrário, fixou-se como uma tatuagem que vai lhe acompanhar daqui para a frente?
Ficou como uma espécie de missão cumprida, o recado dado nesta área. Porque outras coisas estão há muito tempo sendo maturadas, como é o caso do romance parnasiano, ‘‘Amar-te a ti, nem sei se com carícias’’. Viu? O título é um decassílabo perfeito! É um livro complicado porque exige muita pesquisa. Ele se passa no século 19. Na demolição de uma casa em Botafogo, no Rio de Janeiro, são encontrados manuscritos escritos por alguém que evidentemente morreu há muito tempo. A narração é na primeira pessoa. É encontrado esse texto, que é um romance parnasiano, de linguagem rebuscada, com a retórica do século 19. Mas é uma reflexão do século 20. Ao falar do século 19, quero lançar luzes sobre o século 20. Venho maturando isto há muito tempo, e esta é a primeira vez que falo dele.
Além deste, tem outros projetos rondando seus pensamentos?
Tenho desejo enorme de fazer minhas memórias dos anos 70 no Rio de Janeiro: de Tim Maia a Gal Costa, das dunas da Gal às areias de Arembepe, em Salvador; o tempo hippie, do paz e amor, de todas aquelas pessoas com quem convivi, Caio Fernando Abreu... Quero ver se consigo um bom advance. Se alguém se dispuser a me pagar um bom adiantamento, abandono até esse projeto do romance parnasiano e fico só nas memórias. Acho que dá um grande samba. Vão entrar nossos símbolos – de Caetano Veloso e Gilberto Gil a todo esse universo dos anos 70 no Brasil: a ditadura, os terrores, a perseguição, a loucura, o desbunde. Considero a minha existência um privilégio. Vivi todos os momentos mais intensos do Brasil nos lugares certos e na hora certa.
Você não estava no revéillon na casa da Heloísa Buarque de Hollanda?
O reveillon de 1968? Estava lá, sim senhor. Aliás, talvez até seja Helô a bancar o meu projeto das memórias. Ela está com uma editora no Rio de Janeiro chamada Aeroplano. Vamos ver o que rola pela frente...

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