'Tio Mário' volta à boêmia
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terça-feira, 05 de fevereiro de 2002
Célia MusilliReportagem Local 
Na quinta-feira o Bar do Tio Mário abre para o público, na Casa do Jornalista, resgatando uma referência de diversão em Londrina. Nos anos 70, comandado na rua Borba Gato por Mário Theodoro, que se transformou no tio do local, o bar reunia estudantes, atores de teatro, músicos da noite, políticos inflamados e quem mais quisesse se juntar à confraria animada.
Na verdade, o bar foi criado em 1968 pelo jornalista Apolo Theodoro, filho do velho Mário, que na época tinha deixado o emprego num banco e resolveu investir no negócio pensando nos amigos boleiros que só queriam saber de futebol e cerveja. O problema é em que dois anos de funcionamento os amigos beberam o estoque, brinca Apolo que, no prejuízo, passou em 1970 o estabelecimento para o pai, torcedor fanático do Bangu e a única pessoa capaz de colocar os boleiros e as contas em seu devido lugar.
Sem dar moleza aos frequentadores e carismático a ponto de manter a ordem sem perder a clientela, Tio Mário, falecido em 1991, ficou com o bar durante quase duas décadas e só passou o negócio para o filho Joaquim Francisco Theodoro, o Carioca, em 1987. O segredo da casa que só fechou em 95 era a boa acolhida, a cerveja gelada e o churrasquinho com farofa e molho verde, prato que se tornou o carro-chefe a partir de uma receita do Tio Mário que adorava a cozinha.
Nos anos de funcionamento, o bar mudou de endereço várias vezes na região central de Londrina e a freguesia sempre ia atrás. Entre os habitués alguns já falecidos, outros prováveis frequentadores do novo espaço estavam o médico Luiz Carlos Jeolás e o ex-prefeito de Londrina Wilson Moreira que se juntavam com o poeta Dom Pablo, o pianista Paganani, o atual secretário de Segurança do Estado José Tavares, a diretora de teatro Nitis Jacon, o escritor Domingos Pellegrini e jornalistas de várias gerações como Marinósio Filho e Marinósio Neto, Widson Schwartz, Joel Guimarães, Edson Vicente (o Jerê), Bernardo Pellegrini, José Adalberto Maschio (o Ganchão) e quem mais quisesse engatar um bom papo que às vezes acabava em discussões memoráveis. No final, todo mundo tinha razão e a noite terminava em pizza ou melhor em churrasquinho.
Ao reabrir o bar essa semana junto com os irmãos Wanderley Souza Theodoro (o Lelei) e Carioca, Apolo Theodoro quer resgatar a trajetória do pai criando um ambiente democrático. Do velho Mário, contam-se histórias engraçadas nas quais se incluem sua tolerância com os excessos de alguns frequentadores os bêbados que tinham salvo-conduto, segundo Apolo e sua irritação com as batucadas que atrapalhavam o jogo de baralho. Apesar das broncas, o espaço sempre abrigava as rodas de violão com os atabaques insuportáveis que deixavam seo Mário com cara de poucos amigos. Seguindo a tradição, quando o bar passou para o filho Carioca e a esposa Cleusa em 1987, a freguesia respeitava o princípio de diversão sim, bagunça não. Taco de sinuca na mão, quando era preciso esfriar a clientela, Cleusa, falecida no ano passado, mantinha a ordem do local e protegia dos engraçadinhos as filhas adolescentes que ajudavam no atendimento das mesas.
Negócio de família, o bar agora volta a funcionar numa garagem repaginada da Casa do Jornalista e deve abrigar remanescentes das gerações que o frequentavam quando ainda funcionava na rua Borba Gato, acrescidas de filhos e até netos. Com projeto do engenheiro Jayme de Oliveira Rocha Júnior e mobiliário criado por Poka Marques, que recicla madeira de demolição em Londrina para fazer móveis de peroba, o bar avarandado vai manter no cardápio o popular churrasquinho, mas também conta com massas do Pastel Mel já bem conhecidas pelos londrinenses e os pratos do dia que incluem a comida brasileira numa variedade que vai das moquecas ao arroz carreteiro.
Para reforçar a descontração do local, Apolo Theodoro quer investir em boa música e convidar pessoas da cidade para fazer seleções com repertório de discos em vinil. Instalamos uma vitrola aqui, conta. E inclui nos planos um programa radiofônico com microfone para falar com a freguesia do bar que também vai ter espaço de jogos, performances teatrais e noites de poesia. O novo Bar do Tio Mário valoriza o espaço verde da sede do Sindicato dos Jornalistas de Londrina numa reedição que junta diversão e memória. Ninguém duvida que a casa deixou saudade, desde que fechou as portas nos fim dos anos 90, por ter se tornado uma referência também de comportamento. Do que me lembro, foi o bar, em Londrina, onde as mulheres começaram a jogar sinuca.
Serviço: Bar do Tio Mário: Rua Samuel Wainer, 17 (Casa do Jornalista), no Jardim Mediterrâneo, em Londrina. Fone (43) 342-3569. Horário de funcionamento: de terça à sexta-feira: a partir das 17h30. Aos sábados: abre às 16 horas. Aos domingos: almoço a partir do meio-dia.


