‘‘Eu sei que me disseram por aí/ E foi pessoa séria quem falou/ Você estava com saudade de me ver passar por a풒. A música ‘‘Nós’’, que ganhou várias interpretações – a que mais repercutiu foi a de Cássia Eller –, traz a assinatura de um compositor comprometido com manifestações populares. Tião Carvalho utiliza elementos arraigados ao povo para reforçá-los e estimular o exercício da cidadania. Nascido no Maranhão, o músico apresenta amanhã em Londrina o espetáculo ‘‘Tião Carvalho canta João do Vale’’.
Esta é a segunda vez que Tião Carvalho vem a Londrina, em ambas ministrou a Oficina de Danças Brasileiras. O show de Tião Carvalho encerra a Semana de Música, evento promovido pelo Curso de Música da Universidade Estadual de Londrina e pelo Projeto Concertos Matinais.
Cantor, compositor, carnavalesco, dançarino e pesquisador da cultura popular, Tião Carvalho enxerga nas brincadeiras tradicionais uma importante função social. Na oficina ministrada essa semana na UEL, Carvalho tentou mostrar um pouco do conhecimento informal aos alunos. ‘‘A gente sabe que o estudo deles é formal. E essa abertura para o estudo informal enriquece para desprender um pouco da partitura, aprender a tocar se movimentando . Os músicos aprendem que sua função é fazer festa e provocar esse sentimento’’, ressalta.
Integrante da Banda Mafuá e do grupo Cupuaçu, ambos de São Paulo, além do grupo de teatro de Campinas Saia Rodada, Tião Carvalho tem uma agenda lotada de atividades. A banda Mafuá está produzindo o segundo disco, enquanto o Saia Rodada prepara a estréia do espetáculo ‘‘O Bloco do Baralho’’, sobre um bloco de Carnaval que existiu no Maranhão no final do século retrasado. Ao mesmo tempo, Tião Carvalho prepara seu primeiro disco solo, ‘‘Quando Dorme Alcântara’’, e ainda encontra tempo para participar de uma roda de samba às quartas-feiras no Bar Avenida, em São Paulo.
Entre as manifestações populares, o Carnaval provoca preocupação: ‘‘Essa coisa de vendagem tem uma dimensão muito grande. As escolas de samba, o turismo e os meios de comunicação não mostram o Carnaval informal. A cidade grande é muito formal. O Carnaval tem um contexto religioso. Ele é necessário para enfrentar 40 dias de purificação e passar o resto do ano equilibrado para assumir suas funções como cidadão’’, explica.
Também surgido como expressão popular da periferia, o atual ‘‘funk carioca’’ aglutina outras características. ‘‘É uma manifestação popular sim, o perigo é que a periferia está fragilizada por causa da violência. O produtor está pensando em vender a qualquer preço. Nós estamos perdendo, isso não é música, a música brasileira está sumindo nesses campos’’.
No show, Tião faz homenagem ao maranhense João do Vale, que morreu quase no esquecimento. ‘‘Seu legado é imenso. Mas parece que os brasileiros não têm pai nem mãe. Somos filhos desta terra e apesar de tudo às vezes você pode ficar completamente abandonado. João do Vale é um exemplo para nós e as autoridades de que precisamos acordar’’, completa. O espetáculo conta com Gabriel Levy na sanfona, Marcos Ribeiro no violão, Ricardo Mendonça e Henrique Meneses na percussão e Ana Flávia – que Tião conheceu em Londrina – no baixo.
O trabalho que Tião Carvalho vem desenvolvendo na cidade deve ter continuidade. ‘‘Eu fico muito contente em vir, e também por esse trabalho junto à UEL. Eu gosto do jeito da cidade’’. O músico pretende voltar pelo menos duas vezes por ano. No show, o disco ‘‘Toadas de Bumba-meu-boi’’, do grupo Cupuaçu, será vendido por R$ 15,00.
Tião Carvalho Canta João do Vale – Show com Tião Carvalho e grupo. A apresentação marca o encerramento da Semana da Música, promovida pelo Curso de Música da Universidade Estadual de Londrina e faz parte da Série Concertos Matinais. Amanhã, às 10h30, no Cine Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85), em Londrina. A entrada é franca.

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