São Paulo - Misture o roteiro intrincado de ''A Origem'' com o humor negro de ''Pulp Fiction'' e uma edição ágil à ''Snatch - Porcos e Diamantes''. Tempere um pouco com a estética dos games, adicione um enredo tupiniquim e bata tudo no liquidificador. Está pronta a fórmula de ''Dois Coelhos'', longa de estreia do cineasta Afonso Poyart.
O filme busca espaço num filão em que o audiovisual brasileiro engatinha: o dos filmes de ação. Tudo o que se espera de um título dessa espécie está lá: explosões, perseguições, brigas e tiroteios embalados numa trama de traições e romance.
''Quis fazer um filme sobre o desejo que todo brasileiro tem de se vingar dos corruptos'', afirma Poyart, que tem experiência no ramo da publicidade e também assina o roteiro.
Na trama, Edgar (Fernando Alves Pinto) se envolve em um acidente que muda a vida de Walter (Caco Ciocler) e de Júlia (Alessandra Negrini). Sentindo-se (ou sabendo-se) culpado pelo infortúnio, ele resolve perseguir o juiz que o inocentou.
A linguagem ágil adotada e a sucessão de efeitos especiais têm alvo certo: o público jovem. ''O cinema nacional tem falhado com os adolescentes. Não há filmes voltados para eles'', avalia o distribuidor Abrão Scherer, da Imagem Filmes.
Aproximadamente R$ 3 milhões foram gastos no lançamento, que deve ocupar 300 salas em todo o País e brigar pelos espectadores dos ''blockbusters'' de férias. A produção do filme custou pouco mais do que isso, R$ 4 milhões, montante captado por meio de leis de incentivo.

Na cola de ''Tropa''
''Dois Coelhos'' tenta encontrar sua plateia enveredando pela trilha aberta por títulos como ''Tropa de Elite 2'' (2010) e ''Assalto ao Banco Central'' (2011).
O primeiro contou com uma equipe americana para preparar as cenas de ação e virou o filme brasileiro mais visto no país, levando 11 milhões de pessoas aos cinemas. Já o segundo pegou carona num episódio real e, apesar das críticas negativas, garantiu dois milhões de ingressos vendidos.
Para o professor de cinema Ismail Xavier, o segredo para o sucesso de um filme de ação está nas mãos do diretor e dos atores. '''Cidade de Deus' (2002) e 'Tropa de Elite' foram os que mais público tiveram pela contundência, por conseguirem criar um mundo verossímil e uma representação própria da violência que corresponde à expectativa do público de cinema'', opina.
O produtor Marcos Didonet, de ''Assalto ao Banco Central'', afirma que a aposta no gênero só foi possível por causa do aumento da profissionalização do cinema no Brasil.
Se detêm o ''know-how'' técnico, alguns títulos ainda derrapam em quesitos, digamos, mais prosaicos, como roteiro, atuação e direção. Aí começou a ruína de ''Besouro'' (2009), ''Segurança Nacional'' (2010) e ''Federal'' (2010).
Mas sempre é possível botar a culpa na magreza do orçamento. ''O filme de ação, em geral, não é barato. Tem que ter várias câmeras, um super-roteiro, um grande editor'', elenca Paulo Sérgio de Almeida, diretor do Filme B, portal que monitora o mercado audiovisual brasileiro.

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