THOMAS MANN REEDITADO
Nelson Sato
de Londrina
Uma galeria de personagens atormentados volta a frequentar as livrarias brasileiras. Gustav van Aschenbach, Tonio Kroger, Felix Krull, Adrian Leverkuhn e, claro, Hans Castorp são alguns dos visitantes ilustres. Todos respiram entre lombadas na obra do romancista alemão Thomas Mann (1875-1955), cujos títulos começam a ganhar reedição pela editora Nova Fronteira.
A novidade é a biografia inédita Thomas Mann Uma Vida, de Donald Prater, com lançamento previsto para setembro. As reedições virão com novas capas e traduções revisadas. Já neste mês, salta dos fornos o volume reunindo as novelas Morte em Veneza e Tonio Kroger, que aliás foram os primeiros títulos do autor a desembarcar no País nos longínquos anos 30.
Na ocasião, foram publicados em volumes separados pela editora Guanabara. Mann ainda vivia as glórias de ter sido laureado com o Nobel de Literatura, em 1929. Morte em Veneza, que virou filme pelas mãos do diretor italiano Luchino Visconti, é considerada a narrativa mais confessional do escritor.
A história gira em torno de um intelectual que vai passar um verão em Veneza e vê-se traído por desejos insuspeitos ao ficar obcecado por Tadzio, um menino de 14 anos. Segundo os estudiosos, as digressões e tempestades íntimas vividas pelo protagonista Gustav van Aschenbach revelariam as próprias idéias e a alma do autor.
A arte afinal é uma vida elevada observa o protagonista. Ela torna mais profundamente feliz, ela consome mais rapidamente. Ela sulca no rosto de seu criador os rastros de aventuras imaginárias e espirituais e ela produz, com o decorrer do tempo, mesmo em monástico silêncio de existência exterior, um ânimo, uma supersensibilidade, um cansaço e uma curiosidade dos nervos que uma vida cheia de dissolutas paixões e prazeres quase não consegue produzir.
Aqui, é Mann falando pelos cotovelos de Aschenbach. Não por acaso, Luciano Trigo assinala no prefácio que quem ler esta novela, está lendo um coração. Tonio Kroger vai mais fundo ainda nos traços biográficos. Na trama, um rapaz de família aristocrática alemã descobre-se um eterno desajustado e se dedica a partir daí à vida de escritor, isolando-se numa torre de marfim literária.
A literatura não é profissão alguma, e sim uma maldição apregoa o personagem. Nós, artistas, não desprezamos ninguém tão profundamente como o amador, o vivo, aquele que por uma vez pensa poder ser artista observa em outra passagem. O dom para o estilo, forma e expressão já pressupõe esta fria e descontente relação para com a humanidade. Pois o sentimento são e forte isso está confirmado não tem gosto. A partir do momento em que se torna homem e começa a sentir, o artista está acabado sublinha a seguir. É preciso ter morrido para ser um completo criador exagera mais adiante.
As duas novelas sintetizam o impasse do artista ante os dualismos arte-mundo burguês e razão-sentimento, que bateria ponto em suas obras posteriores. Segundo o prefaciador, Thomas Mann exige renovadas leituras do público menos pelas inovações formais (afinal o escritor segue a tradição do romance realista europeu do século 19) do que pela quantidade de temas sobre os quais se debruçou ao longo de sua obra incluindo questões morais, estéticas, políticas, filosóficas e científicas.
A ironia e o subentendido, duas marcas registradas de seu texto, nunca comprometem a clareza. Dos romancistas alemães, é ele que mais merece os epítetos de clássico e universal conclui Trigo. Depois de Morte em Veneza e Tonio Kroger, o cronograma da editora prevê a seguinte ordem de lançamentos: As Confissões do Impostor Krull em maio; Os Buddenbrook em junho; Doutor Fausto e Cabeças Trocadas em julho; Sua Alteza Real em agosto; A Montanha Mágica em setembro; Carlota em Weimar e Os Famintos em outubro; e José e seus Irmãos (em três volumes) entre novembro e dezembro.
A biografia, carro-chefe da empreitada, sai em setembro. O volume ilumina aspectos desconhecidos da vida e da obra do escritor, desde a primeira infância em Lubeck, quando traz à luz os dons artísticos de sua mãe brasileira (nascida em Angra dos Reis) Júlia Johann Mann. Investiga os anos em Munique, o exílio nos Estados Unidos e a mudança para a Suíça.
Entre os episódios enfocados constam a homossexualidade latente na adolescência, as divergências com o irmão Heinrich Mann, o difícil relacionamento com os seis filhos (entre eles, Klaus, que cometeu suicídio) e a evolução política (que passou da defesa intransigente do nacionalismo à ativa resistência ao nazi-fascismo).





