THOMAS MANN
Mostra
‘‘Julia Mann
- Uma Vida
Entre Duas
Culturas’’
abre hoje
em Curitiba
Zeca Corrêa Leite
ReproduçãoFazenda Boa Vista, com vista sobre a baía de ParatyThomas Mann e seu irmão Heinrich deram ao mundo alguns dos melhores romances da literatura universal. Especialmente Thomas, com ‘‘A Montanha Mágica’’ e ‘‘Os Buddenbroock’’. O que até agora ninguém sabia era que esses homens nasceram de uma brasileira, Julia Mann, natural de Paraty, no Rio de Janeiro. Ainda menina perdeu a mãe, Maria da Silva, e com 7 anos de idade foi levada pelo pai para morar com a avó paterna, Marie Luise.
A exposição ‘‘Julia Mann - Uma Vida Entre Duas Culturas’’, que será inaugurada hoje, às 18h30, no térreo da Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba, joga luzes sobre essa mulher desconhecida. O projeto é ambicioso: ele cumpre sua fase itinerante antes de seguir ao Chile e, finalmente, chegar à Alemanha.
ReproduçãoJulia MannCompõem o acervo fotos e ilustrações de Paraty, da fazenda onde nasceu, do Rio de Janeiro, cafés, mansões e palácios alemães, vistas de ruas e praças à época em que Julia circulava por esses lugares, na segunda metade do século XIX e início do século XX - além de fotos suas, uma mulher sempre muito bonita.
A exposição foi pensada sob diversos aspectos, transformando-se quase num evento. A abertura terá também performance com o grupo teatral Tanahora, da Puc, com direção de Laércio Ruffa. Um livro - ‘‘Julia Mann - Uma Vida Entre Duas Culturas’’ - caprichosamente editado pela Estação Liberdade, repleto de fotos e ilustrações de cidades e paisagens brasileiras e alemãs, reúne ainda ensaios de Antonio Skármeta, Frido Mann, João Silvério Trevisan, Dieter Strauss, Maria A. Sene e Cássio Cotrim.
Dentro do mesmo projeto será realizada palestra com o professor Klaus Eggensperger, no Auditório Paul Garfunkel, quinta-feira, às 18 horas. O tema: ‘‘Julia Mann - Uma Vida Entre Duas Culturas’’. E entre 17 e 19 de junho, no mesmo auditório, às 18 horas, serão exibidos os filmes ‘‘Soy Una Mujer Escarmentada’’, ‘‘Golo Mann - Una Semblanza’’; ‘‘Thomas Mann - Una Vida’’; ‘‘Morte em Veneza’’.
Ainda muito jovem e no curto prazo de sete anos Julia sofreu com as mortes de duas mulheres importantes em sua vida: aos 7 anos foi a mãe. Aos 14, a avó Marie Luise, a quem se afeiçoara profundamente. Casou-se aos 18 anos com o jovem comerciante Thomas Johann Heinrich Mann, de quem ficara noiva um ano antes.
O casal teve quatro filhos, dois meninos e duas meninas; a família levava uma vida harmoniosa, porém o pai morreu cedo, aos 51 anos. A viúva educou os filhos com competência. Mesmo com o passar dos anos sua beleza mantinha-se com a mesma graciosidade dos tempos de juventude. Nas reuniões ela era alvo de atenção dos senhores ‘‘que oscilavam sem saber se deveriam cortejar as filhas da dona da casa ou a própria’’, segundo um depoimento.
Pelo que se sabe, o berço de origem da mãe nunca foi motivo de orgulho para Thomas Mann. Porém, para ela, um golpe realmente duro foi quando seus dois famosos filhos brigaram por convicções políticas.
Thomas defendia a monarquia, Heinrich a democracia. Passaram anos sem se falarem, por mais que a mãe tentasse sensibilizar tanto um quanto outro. A amizade foi reatada quando Heinrich caiu gravemente enfermo e o irmão foi visitá-lo no hospital, em janeiro de 1922.
No Natal desse ano Julia foi a Munique visitar filhos e netos. Comunicou que pretendia mudar-se para Wessling, uma aldeia ao sul de Munique. Logo após ter chegado ali, foi acometida por forte gripe. A moléstia evoluiu e após conversar pela última vez com seus três filhos, Heinrich, Thomas e Julia Elisabeth, faleceu. Foi sepultada no cemitério Waldfriedhof, ao lado da filha Carla, que se matara 13 anos antes, devido a um caso amoroso.
Em 1958 foi publicado na Alemanha o único livro de Julia Mann, ‘‘Aus Dodos Kindbeit’’ (Da Infância de Dodô), que relata suas memórias de infância. Dodô era o apelido de Julia quando criança. Nele estão imagens vívidas de quando ainda morava no Brasil e sua chegada na Alemanha. Paraty e Lubeck têm especial importância nestas páginas. Duas cidades diametralmente opostas, seja na geografia seja na cultura.
As cores apaixonadas com as quais tingia cenas do passado e relatava aos filhos, foram de grande importância para muitas das obras de Heinrich e Thomas Mann. Entre elas está ‘‘Os Buddenbrook’’. Numa carta escrita em novembro de 1946, Heinrich deixou registrada que ‘‘a primeira parte de ‘Zwischen den Rassen’ é a infância de minha mãe no Brasil’’. Como se vê, a brasileira que nunca mais retornou à terra natal, tornou-se universal, mesmo aquietada à sombra dos filhos.
• Exposição de foto-documentação ‘‘Julia Mann - Uma Vida Entre Duas Culturas’’ - abertura hoje, às 18h30, no hall da Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba. Permanece até dia 20.

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