Francelino França
De Curitiba
‘‘Esse espetáculo foi escrito na segunda-feira passada... É uma homenagem aos grupos que têm que estrear um espetáculo e não estão prontos para estrear.’’ A justificativa de Gerald Thomas, sobre a falta de tempo hábil para terminar o texto de ‘‘Coro/Camarim - Uma Tragédia Rave’’, não agradou ao público, presente no Guairinha, anteontem. Na platéia, era possível ouvir o público reclamar ‘‘cadê a curadoria que não vê isso?’’; ‘‘o duro é que o seu cachê é o mesmo...’’.
Na estréia da quase-peça ‘‘Coro/Camarim - Uma Tragédia Rave’’, de criação coletiva, somente os 28 minutos iniciais estavam prontos. A concepção dramatúrgica do mais-que-perfeito Thomas foi reunir um grupo de clubbers num apartamento, durante uma festa ‘‘pink’’, regurgitando filosofia barata, como livres pensadores modernos (atores e diretor criaram o texto). Num estilo denominado como ‘‘pirandeliano’’, depois de esgotado o texto de ‘‘Coro/Camarim - Uma Tragédia Rave’’, os 13 atores começaram a explicação sobre a existência dessa meia-peça no Festival.
‘‘Chegou um ponto da peça que a gente não sabe como continuar... Não temos a menor intenção de ficar na história dramatúrgica nesse país...’’, disse um dos atores. Entre verdades e ilusões, um deles ressaltou que a parcela do dinheiro para levar ‘‘Coro/Camarim - Uma Tragédia Rave’’ a Curitiba era inferior ao combinado. ‘‘Enquanto o Victor (Aronis) não depositasse o dinheiro não terminaríamos a peça.’’ Ao final do ‘‘espetáculo’’, o grupo ‘‘Ópera Seca’’ foi aplaudido friamente.
As negociações com a organização do FTC começaram quando Thomas propôs dois trabalhos novos. De última hora, teria telefonado para os organizadores dizendo não ter condições físicas de fazer os dois espetáculos. Após a apresentação de ‘‘Coro/Camarim - Uma Tragédia Rave’’, os proprietários da Calvin Entretenimento (promotora do FTC) se dividiram diante do acontecimento. Indignado, Leandro Knopfholz cogitou a possibilidade de distribuir nota à imprensa com o título ‘‘Erramos’’, assumindo o engano de ter trazido Thomas para essa edição do FTC. Cássio Chamecki reagiu contra essa idéia. Uma amiga do trio, presente à discussão, interrompeu criticando: ‘‘Cássio, o Gerald pode fazer cocô na sua frente que você aplaude. Você morre de paixão por ele.’’ Victor assumiu o papel de contemporizador nessa história, ao falar com a imprensa (leia entrevista no box). Leandro abandonou o Guairinha sozinho.
Na entrevista coletiva concedida ontem pela manhã, Thomas tentou explicar sua dramaturgia. Esse processo chamado de ‘‘action writing’’ se resume em aliar num único texto o universo pessoal de cada ator com os acontecimentos do dia-a-dia do país. ‘‘Hoje dependo da resposta que o ator me dá.’’
Thomas disparou dardos tranquilizantes nos repórteres. A soberba intelectual conduziu a conversa no ‘‘Festival da Mídia’’, como denominou o evento que financiou a montagem seu espetáculo. Cogita-se que seu cachê alcance os R$ 30 mil, valor que ele não revela. ‘‘Ao mesmo tempo sou uma puta, porque aceitei o convite. A arte sempre teve a ver com o capitalismo’’, confessou. A respeito dos nomes citados no palco, emendou ‘‘ninguém pode ficar ofendido, nem lisongeado’’.
Gerald Thomas, habilmente, desviou a atenção para sua figura polêmica, disparando frases de efeito. Não estava com um trabalho pronto e convincente para a estréia. Se valeu de atitudes polêmicas para camuflar sua aridez criativa. Seu orgulho intelectual teve como escudo uma cortina de fumaça. A última festa rave foi uma desculpa para seus discursos vazios.Alegando falta de tempo para terminar o espetáculo que levou ao festival, Gerald Thomas se vale de atitudes polêmicas para camuflar a aridez criativa
Marcio Scatrut e ReproduçãoCena de ‘‘Coro/Camarim - Uma Tragédia Rave’’: fusão de dois espetáculos não deu certo e Gerald Thomas (detalhe) alega falta de tempo e de verba

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