The Doors por The Doors
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terça-feira, 17 de agosto de 2010
Fernando Moura<br> Agência Estado 
Jim Morrison não era nada. Artisticamente, não passava de um jovem jeitoso em quem uma guitarra poderia ficar bem. E só. Mas era tudo de que a banda Rick and the Ravens precisava para animar uma festinha de formatura na Marina de Los Angeles naqueles anos 60. Só havia dois problemas: 1) Jim Morrison não sabia tocar guitarra. 2) Jim Morrison não sabia cantar.
Ali baixinho, ao pé do ouvido, Ray Manzarek, amigo de universidade e tecladista, deu as coordenadas: ''Jim, faz o seguinte: coloca a guitarra no volume zero.'' O show acabou, Jim recebeu seus 20 dólares de cachê e agradeceu. ''Ray, este foi o dinheiro mais fácil que já ganhei.''
A história andou e Jim Morrison, mesmo ícone à frente dos Doors, se tornaria tudo, menos um bom vocalista. The Doors por the Doors, trabalho rico colhido em entrevistas e pesquisas pelo jornalista americano Ben Fong-Torres, ex-repórter da Rolling Stone e último homem a entrevistar Morrison, mexe no vespeiro.
As fontes são pessoas que estiveram no olho do tornado, como o pai, George Morrison, além de irmãos, amigos, produtores e os integrantes da banda que chegou a ser chamada de ''Beatles americanos''.
Fong-Torres assume muitas vezes uma escrita em primeira pessoa, o que lhe garante diferenciais sobre outras biografias feitas por quem não esteve ao lado do cantor. Mas se estava tudo em suas mãos, por que não fez o livro antes? Torres diz que muitos nós tiveram de ser desatados entre os músicos, que não chegavam a consensos sobre direitos comerciais.
O que manteve os Doors na estrada? Eis a pergunta que Torres se fez ao constatar o nível de desleixo com que Morrison levava sua carreira. Coube ao tecladista Ray Manzarek, ao guitarrista Robbie Krieger e ao baterista John Densmore respirar fundo e contar até três. Muitas vezes. ''Morrison sempre agiu de forma pouco profissional e descontrolada. Colocou em risco a carreira da banda.''
As fragilidades vocais de Morrison não são camufladas no livro. John Densmore, o baterista, fala sobre a sensação que teve ao ver Jim cantar pela primeira vez. ''Ele nunca tinha cantado antes, estava apenas começando. Sua voz não era encorpada, mas ele tinha total confiança em si mesmo, algo do tipo 'vou me tornar vocalista'. Nada de cantar a partir do diafragma ou de técnicas especiais, apenas cantava, gritava ou o que quer que fosse aquilo que estava fazendo'', comenta.
O próprio Morrison tinha consciência de suas limitações. Ao falar com Manzarek na praia de Venice sobre a ideia de formar os Doors, abriu-lhe o coração. ''Não sei. Sou meio tímido e a minha voz não é lá tão boa.'' Ao que Manzarek devolve: ''Sua voz não é tão boa? Bob Dylan é famoso internacionalmente com aquele guincho que é a voz dele.'' Morrison então enfiou as mãos na areia e começou a cantar Moonlight Drive. ''Assim nasceram os Doors: as letras de Jim somadas à minha música climática'', diz Manzarek.
Aos brasileiros, um belo tira-gosto. A influência da bossa nova nos Doors é um fato, maior do que a própria música pode transparecer. Em entrevista ao Grupo Estado, Ray fala de como sons joãogilbertianos passaram a ser perseguidos pela banda.


