Cristovão Tezza: "Não existe literatura ‘de esquerda’ ou ‘de direita’ - isso é ridículo. Existe boa ou má literatura"
Cristovão Tezza: "Não existe literatura ‘de esquerda’ ou ‘de direita’ - isso é ridículo. Existe boa ou má literatura" | Foto: Fotos: Divulgação



O sucesso estrondoso do livro "O Filho Eterno" (2007), romance premiado do escritor Cristovão Tezza, que em 2016 ganhou adaptação cinematográfica, não foi pontual. Considerado um dos mais importantes ficcionistas contemporâneos do Brasil, mal recebeu o segundo lugar no Prêmio Jabuti 2017, categoria romance com o livro "A tradutora" (2016), acaba de lançar sua mais nova obra: "A Tirania do Amor" (2018), com tema bem espinhoso. Catarinense radicado na capital paranaense desde a infância, ele estará em Londrina nesta quarta-feira (9) para falar sobre o livro e participar da palestra "A Leitura como Experiência de Vida", às 19h30, no Museu Histórico de Londrina, durante a 14ª edição do Londrix (Festival Literário de Londrina), que segue até sábado (12). A programação é gratuita, com exceção do Cabaré Londrix, e pode ser conferida no site do festival.

No livro, que mergulha no atual momento político brasileiro, Tezza constrói, por meio de digressões, um panorama do país em tempos de Lava Jato. O protagonista Otavio Espinhosa, um economista em crise profunda pessoal e profissional - casamento falido, problemas com o filho e o fim da carreira - pode estar envolvido em um esquema de investigação, que aponta para o cenário de um país em colapso. Apesar da semelhança com a história recente e tema polêmico, o escritor comenta que a recepção dos leitores tem sido boa pelo que tem sentido nas mídias sociais. "Mas ainda é cedo; o livro mal chegou às livrarias. A minha opinião não importa muito. Depois que você lança o livro, ele não pertence mais a você. E, na literatura, parece que a linguagem vai sempre além de seu autor." O escritor respondeu outras perguntas à reportagem da FOLHA por e-mail.

Qual o papel da literatura na reflexão da crise (financeira, política e social) pela qual passou e ainda passa o país?
A literatura é uma arte lenta, que não costuma trabalhar em respostas imediatas. Mas como a crise brasileira é um processo que vem de longe, ela parece que começa a penetrar na vida literária do país, e tem sido tema de algumas obras, principalmente na nova geração. Claro que, hoje, o papel da literatura na vida intelectual do país é bem menor do que já foi em outros tempos. Mas é importante, mesmo imprescindível, porque é uma linguagem que transcende os limites ideológicos ou partidários (e hoje estes limites estão presentes como nunca na vida das pessoas). Não existe literatura "de esquerda" ou "de direita" - isso é ridículo. Existe boa ou má literatura.

O que o motivou a levar essas questões e dilemas atuais, principalmente em relação à política nacional, para a ficção?
Não aconteceu "de caso pensado" - não tenho muito controle sobre o andamento dos meus livros, que sempre começam a partir de uma situação existencial particular entre pessoas, e não de uma intencionalidade temática. No caso de "A Tirania do Amor", o ponto de partida foi a crise pessoal do personagem - a crise brasileira surgiu como o inevitável pano de fundo de um economista importante numa empresa financeira grande e também em crise. De qualquer forma, muitos livros meus trataram de aspectos da vida política brasileira, como "O professor" e "A tradutora".

Como fez para catalisar várias facetas em um mesmo personagem, neste caso, na construção do protagonista Otavio Espinhosa?
Sinceramente: não sei. A construção de um personagem é um processo intuitivo e enigmático. Ele surge quase como um fantasma sem forma e vai ganhando contorno até ficar em pé e, em boa medida, ter vida própria; o escritor, a meio caminho, já é mais escravo do que ele escreve do que a escrita é sua escrava.

Várias de suas obras são ambientadas em Curitiba. Por que neste livro, no qual o tema central é inspirado em um dos episódios mais importantes da cena política, você optou em mudar?
Na concepção original, o livro se passaria em Curitiba (imaginei abrir o livro com Otávio passando em frente à agência do Correio Velho…), mas bastou escrever uma página e ele já estava na Avenida Paulista, em São Paulo. Por instinto, revolvi colocá-lo no centro simbólico da vida econômica brasileira, porque o livro tem este eixo maior.

Em tempos de redes sociais e polarização de posição, sobretudo no Facebook, como você analisa esses fenômenos e a importância (ou não) dessas plataformas no momento em que vivemos?
Vou dizer um lugar comum: estamos no epicentro de uma revolução tecnológica radical, cujas consequências ainda não conhecemos. Essas novas plataformas são ao mesmo tempo inevitáveis e avassaladoras. Para os mais velhos, é um rolo compressor; para os jovens, é só o que existe. A mudança de referência está sendo rápida demais. Há pouco lancei meu livro em Curitiba, uma cidade que não tem mais jornal diário. Como divulgar meu evento? Só pelo Facebook e mandando e-mails aos amigos. Quem não mexe com isso, ou não está no "radar" da literatura, não ficou sabendo. Viramos um milhão de ilhas.

Imagem ilustrativa da imagem Tezza põe o dedo na ferida



A Tirania do Amor (2018)
Autor: Cristovão Tezza
Editora: Todavia (176 págs.)
Preço: R$ 49,90 e R$ 29,90 (digital)

Programação Londrix 2018
Quarta-feira (9)
Sarauzinho, às 15h
Sessão de Autógrafos com Mira Roxo/ Ligia Sokolowski - livro "A nossa escolha – Uma escola em verso e reverso", às 18h30
Performance "Prelúdios", com Leandro Benevides, às 19h
Palestra "A Leitura como Experiência de Vida", com Cristovão Tezza, às 19h30
Onde: Museu Histórico de Londrina (Rua Benjamin Constant, 900)
Quanto: Gratuito

Quinta-feira (10)
Apresentação da oficina "Encantamentos Poéticos", às 14h30 (Vila Cultural Cemitério de Automóveis – av Arthur Thomas, 342)
Palestra "Vinho e Filosofia", com Fabio Luporini, às 20h (Casa Objeto – av. Higienópolis, 2760)
Quanto: Gratuito
Cabaré Londrix com Hermano Electrix e Dj Carol Dutra (Vila Cultural Cemitério de Automóveis – av Arthur Thomas, 342)
Quanto: R$ 15

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