Um poeta lúcido e um escritor existencialista fazem dois atores-bailarinos brasilienses dançarem no espetáculo ‘‘Colóquio Dentro de um Ser’’, que será apresentado hoje e amanhã, às 21 horas, no Espaço Alternativo, no Filo 2002. Em breves 45 minutos, Leonardo Hernandes e Rômulo Augusto compõem a simbiose dos textos do escritor Franz Kafka (1883-1924) e do poeta, ensaísta e pesquisador francês Paul ValSry (1871-1945) com a coreografia assinada por Camillo Vacalebre.
Do celebrado texto de Kafka – Metamorfose – foi realizada uma adaptação livre. Já o diálogo de ValSry – Colóquio Dentro de Um Ser – está na íntegra. O diretor James Fensterseifer diz que o roteiro do espetáculo funciona como uma receita de bolo, em que os dois personagens tentam a todo momento sair do aposento em que se encontram. O colóquio de cunho existencialista funciona como um alerta para a vida. ‘‘O que pode um homem?’’, questionam os personagens.
James Fensterseifer enxerga a contemporaneidade no discurso dos dois escritores porque hoje vive-se em estado de depressão, muitas vezes sem saber os motivos. O espírito perturbado e a personalidade autodestrutiva de Kafka se metamorfoseia num discurso otimista de ValSry, que procurou compreender os modos de operação da inteligência e da capacidade criadora do homem.
A coreografia da montagem foi pontuada para acentuar a transformação do personagem e não confundir com o que é dito. Isso porque a escrita do poeta francês requer uma dose suplementar de atenção. Apesar de o teatro físico comandar o ritmo, os encenadores garantem que não se trata de um espetáculo abstrato.
Um dos destaques da montagem do grupo brasiliense é o cenário que conspira com as palavras. O espírito aprisionado luta num espaço perturbador. Concebido como um sistema similar a de uma ponte levadiça, a cada frase significativa o palco se movimenta até atingir quase 90 graus em relação ao solo. A mobilidade do cenário clean foi obtida com guinchos elétricos, como se jogasse os atores para fora da caixa cênica.
‘‘Colóquio Dentro de Um Ser’’ pode ser traduzido como uma encenação em que a voz interior latente e questionadora busca o autoconhecimento e aí reside o poder de transformação. A trilha sonora compactua com esse estado de espírito intermitente. Há um agrupamento de sonoridades como engrenagens de máquinas, batidas de obras, tic tac de relógio, violas e violinos.
Uma das metas do diretor é apresentar versões ou trabalhos inéditos fisgados da literatura. Figura no repertório do grupo a adaptação de ‘‘Barão das Armas’’, de Ítalo Calvino, que recebeu o título de ‘‘Cosme Trepado’’. Para o final do ano, a enigmática Clarice Lispector ganha versão teatral do clássico ‘‘A Hora da Estrela’’.




HOJE NO FESTIVAL
- ‘‘Allegria, Allegria’’ – Com os palhaços Coisa Fina e Xupetim e a acróbata/equilibrista Patrícia Coutinho, de Londrina. Às 11 horas, no Meprovi (somente para internos). O espetáculo apresenta números circenses clássicos, além de brincadeiras com a platéia.
- ‘‘Aqui Comienza el Viajo’’ – Com o grupo Teatro del Aire, do Chile. Às 16 horas, no Meprovi (somente para internos).
- ‘‘Por㒒 – Com Emmanuel Marinho, de Dourados (MS). Às 21 horas, na Casa do Jornalista (Rua Samuel Wainer, 17 – Jardim Mediterrâneo). Aberto ao público. Espetáculo solo em que o poeta e ator Emmanuel Marinho canta, interpreta e conta histórias numa roda de tereré.
- ‘‘O Tempo Passa Igual’’ – Com Pagu, de Curitiba (PR). Às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo (Avenida Rio de Janeiro, 413). Comédia que descreve os efeitos do tempo sobre a vida de três mulheres e seu encontro na condição feminina.
- ‘‘Colóquio Dentro de Um Ser’’ – Com Rômulo Augusto e Leonardo Hernandes, de Brasília (DF). Às 21 horas, no Alternativo (Avenida Rio Branco esquina com Leste-Oeste).
* Os ingressos custam R$ 10,00 – estudantes, idosos e funcionários da UEL pagam R$ 5,00.

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