Textos do livro - A caneta e o papel
caneta, por que não escreve mais?
estou cansada.
por favor, estou ansioso para ser preenchido!
agora não. estou naqueles momentos em que penso...
ih, lá vêm aquela perguntas: quem sou? de onde vim? para onde vou? por que, afinal, existo?
qual o problema? existo, logo penso.
ora, isto não leva a nada. você nunca vai alcançar alguma resposta em definitivo, vai?
mas eu preciso saber.
pra quê?
para conter a minha ansiedade.
calma, calma! isto passa com o tempo. quando a maturidade chegar...
papel, eu posso acabar a qualquer momento! não sei quando a minha tinta terminará!
você já ouviu falar sobre a lenda dos tinteiros?
ah, sei... canetas que vivem novamente a partir de outras cargas de tinta.
então, poderá viver por muito tempo.
mas talvez isto não seja verdade. pode ser uma das lendas criadas pelas canetas para se livrarem das perguntas sem respostas ou pelos papéis que pretendem fazer as canetas pararem de refletir.
vocês não refletem. quem reflete somos nós, os papéis.
como não refletimos? sem nós, as idéias não seriam expressas.
contudo, vocês precisam de algum lugar no qual possam manifestar as suas idéias. e nesta parte, entro eu.
você não cria, só guarda.
porém sou imortal. você é facilmente descartada. posso viver por anos, décadas, séculos...
ora, sou eu que o transformo. que lhe dou vida.
sem mim, você não vive. não tem função de existir.
eis que chega alguém. pega a caneta e começa a escrever alguns versos. a tinta acaba. irado. lança ao lixeiro a caneta e o papel devidamente amassado. deus boceja e sai do recinto.
(Texto de Rodrigo Souza Grota )





