– caneta, por que não escreve mais?
– estou cansada.
– por favor, estou ansioso para ser preenchido!
– agora não. estou naqueles momentos em que penso...
– ih, lá vêm aquela perguntas: quem sou? de onde vim? para onde vou? por que, afinal, existo?
– qual o problema? existo, logo penso.
– ora, isto não leva a nada. você nunca vai alcançar alguma resposta em definitivo, vai?
– mas eu preciso saber.
– pra quê?
– para conter a minha ansiedade.
– calma, calma! isto passa com o tempo. quando a maturidade chegar...
– papel, eu posso acabar a qualquer momento! não sei quando a minha tinta terminará!
– você já ouviu falar sobre a lenda dos tinteiros?
– ah, sei... canetas que vivem novamente a partir de outras cargas de tinta.
– então, poderá viver por muito tempo.
– mas talvez isto não seja verdade. pode ser uma das lendas criadas pelas canetas para se livrarem das perguntas sem respostas ou pelos papéis – que pretendem fazer as canetas pararem de refletir.
– vocês não refletem. quem reflete somos nós, os papéis.
– como não refletimos? sem nós, as idéias não seriam expressas.
– contudo, vocês precisam de algum lugar no qual possam manifestar as suas idéias. e nesta parte, entro eu.
– você não cria, só guarda.
– porém sou imortal. você é facilmente descartada. posso viver por anos, décadas, séculos...
– ora, sou eu que o transformo. que lhe dou vida.
– sem mim, você não vive. não tem função de existir.
eis que chega alguém. pega a caneta e começa a escrever alguns versos. a tinta acaba. irado. lança ao lixeiro a caneta e o papel – devidamente amassado. deus boceja e sai do recinto.

(Texto de Rodrigo Souza Grota )

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