Textos apócrifos causam polêmica
Nos últimos anos foram muitas as publicações sobre textos apócrifos da Bíblia, mas o que Jonathan Kirsch defende em As Prostitutas na Bíblia (Editora Rosa dos Tempos) vai além do que se poderia imaginar sobre o assunto. A narrativa do autor polemiza com várias correntes religiosas, mesmo afirmando que tudo o que consta de sua obra foi extraído do próprio Livro Sagrado. São algumas das histórias, garante, mais violentas e sexualmente explícitas de toda a literatura ocidental. Falam da paixão humana em toda sua infinita variedade: adultério, sedução, incesto, estupro, mutilação, assassinato político, tortura, sacrifício e homicídio.
Passagens, segundo Kirsch, excluídas da Bíblia por rabinos, sacerdotes e pastores para ocultar a linguagem franca do texto hebraico original sob a capa de eufemismos vagos, interpretações improváveis ou erros de tradução propositais. As Prostitutas na Bíblia teve como base traduções de The Holy Scriptures According to the Masoretic Text (Filadélfia: Jewish Publication Society, 1961) e trechos referentes à The New English Bible With Apocrypha, 2ª edição (Nova York: Oxford University Press, 1970).
O escritor defende a publicação destes textos, pois muito podem contribuir para problemas da atualidade, como a questão do aborto e até a luta pela paz no Oriente Médio. A Bíblia é também um tesouro de narrativas sobre as vidas de homens e mulheres inteiramente humanos, ou seja, de indivíduos que se sentiam tão confusos, tão cheios de conflitos, tão desorientados, torturados e vulneráveis às fraquezas da carne e aos insucessos do espírito quanto qualquer personagem de Homero, Shakespeare, Dostoievski ou de qualquer um dos melodramas, novelas e folhetins que constituem a literatura de nossa época, pondera.
Kirsch chama a atenção para o fato de que nem sempre as traduções do texto bíblico dizem realmente o que ocorreu, e que expressões idiomáticas ganharam mais suavidade. É o caso da história de Rute, uma jovem viúva, que foi, a pedido da sogra, ao encontro de Boaz, um rico dono de terras. E quando ele for se deitar, diz a astuta sogra, tu entrarás e lhe descobrirás os pés e te deitarás; e ele te dirá o que deves fazer (Rute 3:4). A cena é um pouco desconcertante, afirma Kirsch. Afinal, por que ela vai descobrir os pés de Boaz? O que não foi dito, completa, é que a palavra pés (ou pernas) no hebraico bíblico é, às vezes, um eufemismo para o órgão sexual masculino.
Com relação às traduções propositalmente erradas, o escritor lembra o que diz o Livro de Josué sobre a história de dois espiões que são enviados à terra de Canaã na vanguarda de um exército israelita invasor para sondar as defesas inimigas (Jos. 1:1-19). Os espiões recebem guarita de uma cananéia chamada Raabe, a quem o texto original identifica claramente, não uma, mas várias vezes, como prostituta. Na verdade, as palavras em hebraico podem ser interpretadas de modo a sugerir que os espiões estão usando os serviços profissionais da mulher quando são interrompidos por uma patrulha inimiga, destaca.
Kirsch salienta que alguns professores de religião preferem dizer aos alunos que a bondosa e corajosa Raabe é uma estalajadeira. Estudiosos da Bíblia já tentaram validar essa pequena e bem-intencionada mentira, ressaltando que, na história da humanidade, estalagem e bordel são encontrados em um mesmo estabelecimento.
A Bíblia é um mapa da alma humana, e nenhuma sala secreta ou passagem escondida é omitida. E é um mapa cujo criador, fosse ele humano ou divino, via com olhos bondosos e compassivos até mesmo nossas mais exóticas paixões, salienta Kirsch, que completa: Por isso é que as histórias proibidas da Bíblia não são apenas leitura boa e divertida; acima de tudo, afirmam as qualidades essenciais que, para começar, nos tornam humanos.ReproduçãoO escritor Jonathan Kirsch afirma que as várias traduções da Bíblia ocultaram o sentido do texto hebraico originalCleide Cavalcante
Agência Estado





