Tevês terão que indenizar 21 mágicos por causa de Mister M
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quinta-feira, 08 de maio de 2003
Angélica Freitase Elder Ogliari<br> Agência Estado 
São Paulo - Esta semana, o mágico paulistano Geraldin, 35 anos de profissão, recebeu uma notícia pela qual esperava havia quatro anos. A Rede Globo de Televisão e a RBS TV, do Rio Grande do Sul, foram condenadas a indenizar 21 mágicos gaúchos que teriam sido prejudicados por Leonard Montano, o Mister M, que mostrava o que havia por trás dos números de ilusionismo no ''Fantástico''.
''Já veio tarde'', disse Geraldin, que não revela a idade nem o verdadeiro nome. Muito menos o segredo dos números, como fez o colega mascarado. ''A Rede Globo pagou para ver, agora vai ter de pagar a indenização.'' Depois da conquista dos gaúchos, ele diz que os paulistas devem tentar ação semelhante na Justiça. ''Vamos entrar no mesmo barco.''
Geraldin conta que costumava fazer 25 shows por mês, antes de a emissora exibir o quadro no ''Fantástico''. ''Depois disso, o número caiu para quatro.'' Para o mágico, a classe não foi a única prejudicada. ''As crianças perderam a fantasia. Por que não chegam no Natal e dizem que Papai Noel não existe, se querem estragar o que é belo?''
Ele chegou a passar por situações embaraçosas. ''Você sabe que criança fala mesmo. No meio de uma apresentação, era comum ouvir 'Ah, isso aí eu vi como se faz no Mister M!'''
''A Justiça se fez'', afirma o presidente da Associação dos Mágicos de São Paulo (AMSP), Paschoal Ammirati, o Fra-Diávolo, 33 anos de carreira. ''Foi da Rede Globo a idéia do slogan 'O inimigo número um dos mágicos''', diz. ''E o Mister M foi velhaco, porque a mágica tem como fundamento o segredo.'' De acordo com Ammirati, o americano causou ''uma revolta geral''. ''Muitas pessoas tiveram seus shows cancelados por causa do Mister M. Mas os maiores prejudicados foram os que faziam grandes ilusionismos. Alguns até tiveram de jogar o equipamento fora.''
''A Globo colocou o mágico como um vilão que quer ludibriar todo mundo'', afirma Eduardo Peres, de 22 anos, 8 de profissão e campeão mundial de mágica em 2000. ''Era como se a classe tivesse sido desmascarada.''
Peres diz que sofreu com as piadinhas de mau gosto. ''Me diziam: 'Seu nome é Eduardo, então você é o Mister E'. E me perguntavam por que eu não usava máscara'', lembra. ''A qualidade do público caiu muito. Houve um interesse por ver o mágico de perto e saber como os números funcionavam.''
Indenizações - O valor das indenizações será calculado com base na perda de receitas de cada mágico desde o início de 1999, época em que Mister M aparecia no programa dominical. Ao total, será acrescida quantia de igual valor como reparação de danos morais.
As emissoras têm duas semanas para recorrer contra a decisão, tomada pelo juiz Eduardo Kothe Werlang, da 11 Vara Cível de Porto Alegre, no dia 29 de abril. A Central Globo de Comunicação informou que ainda não foi notificada oficialmente, mas que deve recorrer.
O advogado dos mágicos, Marco Antonio Birnfeld, já espera por novas batalhas jurídicas. E também prepara um recurso. Seus clientes não aceitaram a parte da sentença que desobrigou a Globo de apresentar, também no ''Fantástico'', reportagem sobre a condenação que sofreu.
''Todos os mágicos do Brasil perderam de 60% a 70% do faturamento que tinham'', calcula o presidente da Associação dos Mágicos Gaúchos Vítimas do Programa Fantástico, Paulo Roberto Brito Martins, o Tio Tony. Especialista em animação de aniversários e dono de uma loja de produtos para mágicos, ele diz ter perdido clientes e patrocinadores de um programa de TV que estava montando.
Por falta de contratos, o vice-presidente da entidade, Sérgio Schneider, o Mister Albin, deixou de ser mágico profissional e tornou-se vendedor de produtos para calçados. ''Tiraram a essência da magia, que é o encantamento. Grande parte do meu repertório foi destruída.''


