Quando o autor Ricardo Linhares avisou que usaria de realismo fantástico em ''Agora É Que São Elas'', ele se referia, naturalmente, a sequências fantasiosas. Como o acidente na rede de esgoto que levou uma vaca para os ares ou a estranha alergia que deixou o prefeito Juca Tigre, de Miguel Falabella, com ''aquilo'' - e todo o resto - roxo. Mais irreal do que os delírios de Linhares, porém, é ver Vera Fischer no papel de ''mulher comum'' e Miguel Falabella como galã apaixonado.
Pela sinopse, Antônia, de Vera Fischer, deveria ser uma mulher bonita, sim, mas simples e batalhadora, antes de tudo. A atriz, no entanto, parece negar-se a interpretar uma reles mortal - ou não consegue mesmo. Cisma em dar à personagem um ar glamouroso, que simplesmente não cabe. Até para caminhar ela se empina toda, como se - a exemplo da técnica adotada para ensinar as misses de seu tempo a desfilar - tentasse equilibrar um livro na cabeça. Já quando empurra um carrinho de compras, age como se estivesse diante de um carrinho de aeroporto, embarcando para um fim de semana em Milão. Com os melões e tomates, porém, não demonstra a menor intimidade...
Se já é duro de engolir uma deslocada Vera Fischer em cena, pior ainda é deparar com ela e Miguel Falabella juntos. Enquanto a bela insiste em manter a fama de diva, o alter ego de Caco Antibes bem que se esforça, mas não convence como galã sério, másculo e apaixonado. Até nas sequências em que deveria aparecer triste, fica a impressão de que o ator está contendo o riso no canto da boca. Conclusão: a não ser que se ache graça de ver Miguel numa atuação tão ''canastrona'', o personagem só decola mesmo nos momentos de farsa, quando esbraveja ou aparece em alguma situação constrangedora. Com este ''par romântico'', nem a mais crédula Poliana embarca na história. Só há uma justificativa para tamanho desencontro entre intérpretes e personagens: erro de escalação.
Mas os enganos de ''Agora É Que São Elas'' não ficam apenas no casal protagonista. A direção de Roberto Talma é outra sucessão de erros. Das falhas de continuidade às câmaras paradas e enquadramentos pobres. A evidente opção pelo menor esforço deixa a estética da novela pouco acima do padrão de qualidade dos enlatados mexicanos. Isso, sem falar da falta de orientação para os atores iniciantes ou em papéis secundários, que muitas vezes descambam para uma caricatura pseudo-engraçada. Em meio a um elenco desigual, salvam-se as atuações dramáticas de Débora Falabella e Paulo Gorgulho, como a rebelde Léo e o correto Joaquim. Além da performance cômica de Marisa Orth como Van-van. A atriz não chega a inovar, mas pelo menos faz aquilo que sabe.
Se há uma sucessão de falhas na direção, o texto de Ricardo Linhares também não ajuda muito. Embora com algumas tiradas bem-humoradas, os diálogos pecam pela obviedade. Não há espaço para os atores deixarem subentendidos o que seus personagens pensam ou sentem. Tudo é dito claramente e da maneira mais clichê possível. E, no fim do bloco ou do capítulo, tem sempre alguém que solta um dispensável ''Agora é que são elas!''. Assim, não há interpretação que resista...
Em comparação com a bem-acabada, mas pouco criativa, ''Sabor da Paixão'', a novela de Linhares vem obtendo uma boa aceitação. A audiência média está em 28 pontos, contra 25 da sua antecessora no horário. Mas a concorrência nos outros canais é forte. Só o desenho ''Os Simpsons'', exibido às 18 h pelo SBT, abocanha 12 pontos do ibope. Já a Band e a Record - com os policialescos ''Brasil Urgente'' e ''Cidade Alerta'' - faturam 6 pontos cada. A Globo só volta a se distanciar das outras emissoras quando ''Kubanacan'' entra no ar. Há poucas semanas na faixa das sete, a novela de Carlos Lombardi já beira os 40 pontos. E Danielle Winits, ao contrário de Vera Fischer, mostrou-se até convincente no papel de uma mulher exuberante e simples ao mesmo tempo.

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