Fernanda Torres sabe muito bem em quem se inspirar para viver Vani, a ''eterna noiva'' de ''Os Normais''. ''Nas trintonas brasileiras, malhadas e que não saem de casa sem escova no cabelo'', ironiza. Segundo a atriz, para interpretar a personagem da série global basta falar o que está escrito no texto e não tropeçar nos móveis do cenário, pois os roteiristas Alexandre Machado e Fernanda Young já entregam os diálogos muito bem-amarrados. Com a boa média de 25 pontos nas ingratas noites de sextas-feira, ''Os Normais'' entra em seu terceiro ano de produção incensado como uma das últimas surpresas do humor televisivo brasileiro. ''Programas mais baratos como ''Os Normais' podem ser a solução para se experimentar na tevê sem levar ninguém à falência e surpreender a tão desejada audiência'', acredita Fernanda.
A atriz afirma que o programa vai contar com outros personagens fixos em 2003. ''Os amigos podem ajudar a criar saias justas diferentes. Às vezes também fica difícil escalar elenco e ter dois ou três atores fixos aliviaria essa pressão'', explica. Animada com as gravações do filme da série em janeiro, Fernanda não deixa de criticar a corrida das emissoras por audiência. ''A tevê está caminhando muito ao gosto do freguês'', ressalta.
''Os Normais'' deveria ter 10 episódios, mas já está em seu terceiro ano. Qual é a data de validade do programa?
Até o fim de 2003. Porque é escrito por apenas dois autores que fizeram milagre em dois anos e ainda estão dispostos a escrever no próximo. É bom que as coisas tenham um fim, pois tenho medo que o Luiz encha o saco de mim. Mas nada se perde, tudo se transforma. ''Os Normais'' vai acabar, mas o que o programa trouxe de inventividade vai se perpetuar dentro da própria tevê. Toda a equipe do programa, espero, será capaz de produzir outras coisas que venham surpreender as pessoas tanto quanto ou, quem sabe, até mais que ''Os Normais''.
O programa bate 25 pontos na faixa das 23 horas, o que é excelente. Qual é o trunfo da série?
É um programa descarado. Às vezes gravo as cenas sem me dar conta e, quando vejo o programa, me surpreendo com o abuso dele. O Alexandre e a Fernanda criaram dois personagens que espelham o conservadorismo do brasileiro: eles são noivos (e também a nossa moral vacilante), eles mentem, jogam lixo pela janela, traem os melhores amigos. O Alvarenga soube simplificar de forma elegante, deixou que a graça viesse da situação. A elegância do programa contrasta com o descaramento do Rui e da Vani. É um programa que desconcerta o público.
Ter a liberdade para improvisar no texto é o tipo de coisa que afasta você das novelas?
Normalmente a gente improvisa no final do capítulo e às vezes o texto vem inteiro até o fim. Mas são pouquíssimos ''cacos'', essa é mais uma das qualidades do texto: parece improviso sem ser. A dificuldade da novela não tem a ver com falta de liberdade. A dificuldade é o próprio volume de trabalho, que é imenso. A vantagem é que com ''Os Normais'' é possível conciliar teatro, cinema e tevê.
Não ter tanta cobrança pelo Ibope também é um alento?
''Os Normais'' e ''A Grande Família'' são programas mais baratos, o que possibilita que sejam testados no ar. Investe-se pouco a princípio e se não der certo, acaba em um mês. Se der certo, pode ficar três anos. Essa liberdade, essa falta de culpa por não estarem investindo uma fortuna em você, o horário alternativo de sexta que ninguém queria, tudo isso permitiu que a gente trabalhasse sem pressão ou expectativa, produzindo algo diferente.
Você esperava que o programa rendesse dois DVDs e filme?
Tudo que nasce pequeno tem potencial de atingir multidões. Em teatro gosto de estrear pequeno, em tevê, no cinema gosto dos projetos estranhos... Acho fundamental que a tevê busque o cinema e vice-versa. Sinto que está surgindo um novo produto, que é um híbrido entre tevê e cinema. Estou curiosa para fazer o filme de ''Os Normais'', porque é diferente da minha experiência em cinema. Então é uma via de duas mãos, o cinema e a tevê se transformarão para criar uma terceira coisa, diferente do que a gente conhece na ''telona'' e na ''telinha''.

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