A trama de ''A Casa das Sete Mulheres'' - que termina amanhã - mostra a visão feminina da Guerra dos Farrapos, mas não esconde o carimbo de Jayme Monjardim. O diretor, na verdade, se redime das últimas duas minisséries que comandou - ''Chiquinha Gonzaga'' e ''Aquarela do Brasil'' -, que embora bem-produzidas, não chegaram a atingir o bom nível dramatúrgico de ''A Casa das Sete Mulheres''. Além de provar ser possível produzir cenas de batalha convincentes - algo até então difícil de se ver na televisão brasileira -, Jayme tem qualidades incontestáveis. Ele sabe dirigir atores, escalar elenco e achar novos talentos. Qualidades, aliás, que o aproximam de grandes diretores já falecidos, como Walter Avancini, este seu declarado mestre, e Paulo Ubiratan.
Em ''A Casa das Sete Mulheres'' é evidente a entrega dos atores a seus personagens e a mão do diretor conduzindo as cenas. As sete mulheres da casa, que formam a base de toda a história, chamam a atenção pela diversidade interpretativa das atrizes e, ao mesmo tempo, por demonstrarem uma união que torna crível que elas formam realmente uma família. A que teve a interpretação mais condizente, desde o início, foi Nívea Maria. Amarga como chimarrão, a personagem da atriz foi o contraponto para toda a doçura e desvario das filhas. A experiência de Nívea Maria, inclusive, ajudou a novata em televisão Camila Morgado a aparecer mais ainda como a meiga Manuela.
Camila Morgado, aliás, provou o ''olho bom'' de Jayme Monjardim para descobrir talentos. Werner Schunemann, outro novato na tevê trazido pelo diretor, também não decepcionou como o General Bento Gonçalves. Aí, mais uma vez, Jayme Monjardim acertou ao pedir para que o ator interpretasse o personagem de maneira comedida, com gestos vagarosos e postura firme. Sem dúvida, a televisão ganhou mais dois atores de qualidade após Camila e Werner aparecerem em ''A Casa das Sete Mulheres''. E um ator em especial confirmou a sua veia camaleônica para viver papéis diversos: Luís Melo. Para ter certeza, o espectador pode assistir ao ''Vale a Pena Ver de Novo'', que reprisa ''O Cravo e a Rosa''. O ator convence tanto com o trapaceiro Nicanor Batista quanto como o diabólico e insistente militar Bento Manoel de ''A Casa das Sete Mulheres''.
Outro acerto foi eliminar o sotaque gaúcho da minissérie. Entre ter um elenco falando de forma disforme o ''gauchês'', Jayme preferiu não correr o risco e neutralizar o sotaque. Inclusive dos atores gaúchos que participam da produção. O universo gaúcho, aliás, não chegou a ser tão aprofundado quanto em outras minisséries, como ''O Tempo e O Vento'', mas de longe foi a que mostrou de melhor maneira as pradarias sulinas. Tanto que o próprio governo do Rio Grande do Sul fez questão de levar novamente a produção da Globo para fazer as últimas cenas de batalha em Bagé, cidade localizada no cerne do pampa gaúcho. É claro que o diretor aceitou, pois a qualidade cinematográfica dos exércitos mostrados na amplidão do pampa é incomparavelmente superior à de uma locação do Rio de Janeiro.
Entre os personagens, no entanto, os que mais retratam o verdadeiro espírito gaúcho são os que ficaram em segundo plano. O Chico Mascate de Zé Victor Castiel é um tipo mais do que conhecido e lendário do Sul. O vendedor que percorria as estâncias com produtos diversos para comercializar. Uma espécie de ''fenício dos pampas''. No entanto, é o discreto Netinho, vivido com maestria pelo ator André Luiz Miranda, que guarda as características da gênese do que se conhece hoje como gaúcho. Na verdade, o peão de fazenda, que lidava com o gado e, não raro, fruto da relação entre estancieiros e escravas. Aquele que mora no galpão e não na sede da fazenda. O maior mérito de ''A Casa das Sete Mulheres'' é, no entanto, mostrar de forma interessante uma história genuinamente brasileira.

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