Pais assustados procuram pelo ator Jaime Leibovitvh para dizer que sentem ódio quando ele aparece na novela das oito. Os óculos que imputam seriedade à face de Bill também ajudam a disfarçar os olhares libidinosos que direciona para Rique (Matheus Costa), um garoto de apenas sete anos que ele conheceu pela internet. Se a sutil sugestão de pedofilia em ''América'' é capaz de perturbar profundamente o jantar do telespectador, a realidade que assombra médicos no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (HC) esconde um ingrediente mais indigesto: a maioria dos casos de abuso infantil é praticada por gente conhecida pela criança ou por seus parentes.
Nem o cineasta Pedro Almodóvar, com sua precisa vocação para filmar histórias sobre pedofilia, seria capaz de imaginar o roteiro perturbador que repousa em uma das gavetas do médico Ênio Roberto de Andrade, diretor do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Instituto de Psiquiatria do HC. Dezenas de páginas relatam o sofrimento de uma menina de sete anos que apareceu no hospital com HPV, uma doença sexualmente transmissível, na região anal. ''A mãe não entendia porque a criança estava doente, já que não ficava sob cuidados de estranhos.
Descobriu, pasma, que o agressor era o tio da menina'', conta o psiquiatra.
A garota tinha apenas três anos de idade quando os abusos começaram a acontecer. Há dois anos, ela passa por tratamento psiquiátrico para se curar de uma depressão. Assim como Almodóvar faz uma autobiografia fantasiada sobre pedofilia em ''Má Educação'', o ator de ''América'' rouba de sua própria vida a inspiração para compor a ficção. ''Certa vez, quando tinha oito anos, estava sozinho no cinema e percebi que a mão do homem ao lado já ultrapassava bastante o braço da cadeira. Fiquei paralisado, mas logo mudei de poltrona'', conta Leibovitvh.
Além de atuar, o intérprete de Bill trabalha como psicanalista, o que facilitou a tarefa de entender a mente doentia do pedófilo. ''A primeira pessoa que surgiu em minha cabeça foi Michael Jackson. Quis criar um sujeito tão infantilóide quanto ele. O Bill tem brinquedos espalhados pela casa e inventa para a vítima um filho que não existe. Na verdade, ele se projeta na figura do menino e sua casa é uma espécie de Neverland'', compara.
Amabilidade e voz doce são características que aproximam o cantor do criminoso de ''América''. Se nenhum crime ficou provado contra Jackson, o lobo mau da novela, ao contrário, deve receber um castigo rigoroso. Após várias tentativas de encontros com Rique, Bill consegue atrair o garoto para seu apartamento. Um incêndio no prédio, porém, obriga a dupla a deixar o local às pressas, em um táxi. É o motorista do veículo, perplexo com o conteúdo da conversa entre o menino e o tal senhor, quem denuncia o criminoso. Antes mesmo que o abuso físico se concretize, Bill é preso.
A novelista Glória Perez também aponta dados da apavorante realidade como justificativa para abordar o tema no horário nobre. ''A pedofilia é um tipo de crime que está acontecendo muito, e os pais precisam ser alertados, precisam entender que a internet pode ser mais perigosa do que a rua. Minha proposta é tratar o assunto de forma delicada. Quero fazer um alerta, não criar sensacionalismo.''
Segundo a Polícia Federal, dois terços dos sites que exibem pornografia infantil são hospedados no Brasil. Há dez dias, o professor de artes marciais Anderson Costa foi denunciado pelo Ministério Público por distribuir pela internet fotografias de crianças com apelo erótico. Foram encontrados na casa dele 167 CDs que continham imagens de sexo explícito com crianças. Costa pode ser condenado a 256 anos de prisão. Também em julho, na França, um caso de pedofilia ganhou destaque. Após cinco meses de investigação, 62 pessoas foram condenadas por abuso sexual contra 45 crianças com idades entre seis meses e 12 anos.

mockup