TEVÊ
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 02 de abril de 2003
André Bernardo<br> TV Press 
Água com açúcar sob medida
Pouco antes da estréia de ''A Pequena Travessa'', em novembro do ano passado, o diretor de teledramaturgia do SBT, David Grimberg, disse que gostaria ''apenas'' que a nova produção da emissora recuperasse os bons índices de audiência do horário. Afinal, a sua antecessora, o dramalhão ''Marisol'', havia perdido valiosos pontos no Ibope por causa do sempre tedioso Horário Político Eleitoral. O que David Grimberg não podia imaginar é que aquela pueril fábula à la ''gata borralheira'' não só revitalizaria a audiência do horário, com médias de 19 pontos, como realizaria um feito inédito. Na semana que antecedeu o Natal, tanto ''A Pequena Travessa'' quanto ''Esperança'', da ''toda-poderosa'' Globo, cravaram 21 pontos no Ibope. Como tudo é relativo, festa para os primeiros, tristeza para os outros.
O sucesso de ''A Pequena Travessa'' nem é tão difícil assim de explicar. A começar pelo autor argentino Abel Santa Cruz, que já assinou outros ''sucessos'' do SBT, como ''Carrossel'', ''Carinha de Anjo'' e ''Pícara Sonhadora'', a primeira das quatro novelas produzidas pela emissora de Sílvio Santos em parceria com a Televisa, do México. Todas elas, diga-se de passagem, voltadas para o público infanto-juvenil. Não por acaso, uma recente pesquisa constatou que o público infantil que assiste ao SBT chega a 60%, quase o dobro do número de telespectadores-mirins das novelas da Globo. Coincidência ou não, as tramas de conteúdo mais ''light'' e cômico, como ''Pícara Sonhadora'' e ''A Pequena Travessa'', registraram um aumento de 5 pontos na audiência, em relação às de teor mais denso e lacrimoso, como ''Amor e Ódio'' e ''Marisol''.
Por isso, Sílvio Santos optou por uma trama, digamos, mais leve e despretensiosa para substituir ''Marisol''. O mote de ''A Pequena Travessa'' chega a ser risível de tão leve e despretensioso: jovem órfã se veste de menino para arranjar um emprego. Uma espécie de ''Tootsie'' às avessas e em versão ''teen''. Acontece que o único disfarce de que dispunha a simpática Júlia era boné e macacão. Parece pouco, mas foi assim que ela conseguiu enganar, por meses a fio, o elenco inteirinho de ''A Pequena Travessa''. Ninguém notou um certo volume no uniforme do rapaz na altura do peito ou desconfiou do timbre agudo de sua voz. Seria algum problema hormonal? Deixa para lá. O que importa é que a ''travessura'' da protagonista deu certo e ainda possibilitou o pai de todos os clichês: moça pobre se apaixona por rapaz rico. Dá para acreditar?
Dá. Afinal, nada disso parece ter importância para um público que se habituou a rir e a chorar com as novelas mexicanas exibidas pelo SBT desde 1981, quando Sílvio Santos começou a investir no gênero, com a ''antológica'' ''Os Brutos Também Amam''. E lá se vão mais de 20 anos... Atualmente, a autora Ecila Pedroso, responsável pela equipe de adaptação dos textos, até que faz o que pode. Ela se esforça para ''abrasileirar'' ao máximo as tramas da Televisa, mas sempre esbarra na cláusula contratual que exige fidelidade cega aos originais... Paciência. Por essas e outras, as histórias manjadas, os diálogos clichês e os personagens estereotipados estão todos lá. Sem qualquer exceção. A única melhora aparente de ''A Pequena Travessa'' em relação a ''Pícara Sonhadora'' diz respeito à direção. Com o intuito de agradar aos mais jovens, a câmara de Jacques Lagoa tem andado um pouco mais ágil. Muito pouco, vale ressaltar.
O elenco da novela também não deixou a desejar. O SBT tentou reaproveitar alguns ''famosos'', como Cynthia Benini, de ''A Casa dos Artistas'', e Lulo, da mesma safra do ''reality-show'', que fez uma ''participação especial'' como um cantor caribenho, mas nenhum deles comprometeu. Isso sem falar que a música de abertura da novela foi ''Não Dá Para Resistir'', do grupo Rouge, que surgiu a partir do programa ''Popstars'', a versão de ''Fama'' do SBT. Tudo muito moderno e personalizado. Mas moderno e personalizado mesmo o SBT vai ficar quando expirar o contrato com a Televisa e Sílvio Santos resolver investir em textos originais, de autores brasileiros. Só assim, vai aproveitar melhor os bons nomes de que dispõe no elenco, como Eliete Cigarini, Viétia Rocha, Rodrigo Veronese e, principalmente, Bianca Rinaldi, a atual ''queridinha do SBT''.


