TEVÊ - Virtuosos pecadores
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segunda-feira, 06 de novembro de 2006
Mariana Trigo<br> TV Press 
Os sete pecados capitais são cada vez mais aceitos pelo público nas novelas. O que na Idade Média era definido como um temíveis vícios pela Igreja Católica, hoje estão nos dramas e comédias dos folhetins. Gula, luxúria, avareza, ira, orgulho, inveja e preguiça chegam a ser comuns em grande parte das tramas na tevê. E muitos deles atualmente são encarados de uma maneira positiva como, por exemplo, a inveja, elevada à categoria de ambição ou iniciativa no trabalho. A luxúria, porém, ainda gera polêmica. Tanto que Manoel Carlos quase foi crucificado com as cenas de ''strip-tease'' da Olívia de Ana Paula Arósio, em ''Páginas da Vida''. Isso sem falar nas insinuantes investidas em metade do elenco masculino da trama da atirada Sandra, de Danielle Winits, personagens que personificam a luxúria. ''Ela é o tipo de mulher que choca os conservadores e caretões, é livre, assume seus desejos e quem tentar segurá-la vai levar coice'', diverte-se Ana Paula.
A brincadeira é constante nos atores ao viverem papéis que simbolizam os pecados capitais. Fernanda Souza, por exemplo, que interpreta a comilona Carola em ''O Profeta'', é o estereótipo da gula. A personagem acaba sendo engraçada pelas situações tragicômicas, como assaltar a geladeira de madrugada. ''A comida é sua válvula de escape. A Carola é um exemplo de que o que antes era considerado pecado, hoje é engraçado. Os conceitos se transformaram'', avalia Fernanda. ''Não gosto de abordar esse pecado nas minhas tramas. Acho caipira, regional'', critica o autor Antônio Calmon.
No mesmo patamar de ''pecado divertido'' está a avareza, segundo o ator Ary Fontoura. Ary, que interpretou o inesquecível Seu Nonô em ''Amor Com Amor Se Paga'', em 1984, garante que foi o personagem que melhor representou a avareza na tevê. O sovina chegava ao ponto de manter a geladeira fechada com cadeados. ''Ele era o protótipo do avarento. Voltava das festas com os bolsos cheios de comida para não comer em casa. Foi o personagem mais divertido que já fiz'', relembra Ary.
Diversão à parte, tratar de impulsos e sentimentos como a ira, a inveja e o orgulho atraem alguns atores, como Jonas Bloch, que vive o sórdido Ramalho de ''Bicho do Mato'', da Record. ''O orgulho é um dos pecados mais desprezíveis, típico dos vilões, como a inveja. Mas a soberba dos vaidosos é intolerante'', analisa o ator. ''O lado selvagem da ira é outro pecado dos vilões, mas que está em todos nós. Precisamos controlar com cabresto firme'', acredita Alexandre Barilari, que encarnou o raivoso vilão Gustavo em ''Cristal'', no SBT.
A inveja, por sua vez, também permeia o universo vilanesco nos folhetins. ''Celebridade'' foi uma novela que fiz sobre a inveja através da vilã Laura, da Cláudia Abreu. O único pecado que não abordo nas novelas é a gula. Deve ser uma defesa, pois sou muito guloso'', assume o autor Gilberto Braga, que vai abordar a luxúria no núcleo das prostitutas em ''Paraíso Tropical'', próxima novela das oito da Globo, que se passa na Bahia e no Rio.
O cenário baiano, aliás, é o ideal para os personagens devotados à preguiça. A indolência está presente principalmente em adaptações para a tevê dos romances de Jorge Amado. Em ''Tieta'', de Aguinaldo Silva, os personagens exemplificam o ''pecado'' tão presente em novelas ambientadas no Nordeste. Mesmo assim, também é possível encontrar personagens preguiçosos em tramas no Rio e em São Paulo, como ''Páginas da Vida''. Alex, por exemplo, é o oposto do conceito de ''workaholic''. Vivido por Marcos Caruso, chega a ser um marido negligente, de tão omisso. ''O mundo material não o interessa. Ele conjuga o verbo 'ser''', defende o ator. ''Acho interessante novelas em cima dos pecados, mas como tive uma educação católica, esse conceito me trouxe sofrimento. Hoje renego fazer personagens assim'' explica Calmon.


