Até o início deste ano, um personagem motoqueiro com aptidões musicais era um distante ''sonho de consumo'' para Daniel Oliveira. O ator tinha acabado de tirar habilitação para pilotar motocicletas e era vocalista de uma banda de amigos em Belo Horizonte, sua cidade natal. Numa dessas coincidências que só acontecem nas novelas, foi convidado para interpretar o Duda de ''Cobras & Lagartos'', um motoboy sensível, que toca instrumentos de sopro e é o ''romântico à moda antiga'' da trama de João Emanuel Carneiro. ''Foi uma coincidência total'', impressiona-se.
Aos 29 anos e em seu quinto trabalho na televisão, Daniel enfilera personagens idealistas, heróicos e sofridos - como o Luís Jerônimo do ''remake'' de ''Cabocla'' e o Bernardo Borba de ''Um Só Coração'', ambos em 2004, e o Quirino/São Jorge de ''Hoje é Dia de Maria'', no ano passado. Se esbanja bom-mocismo na tevê, no cinema Daniel encarou uma sequência de personagens históricos. Depois de viver o cantor e compositor Cazuza, também em 2004, aguarda ansiosamente a estréia de ''Zuzu Angel'' - que chega às telonas no dia 4 de agosto. No longa, ele interpreta Stuart Angel, filho da estilista que dá nome ao filme, um ativista político morto durante a ditadura militar nos anos 60. ''Olhar para o passado depois de 10, 20 anos te dá um amadurecimento. Quando estamos no olho do furacão é mais complicado'', avalia.
Veja a seguir, uma entrevista com o ator.

O Duda lidera um grupo de motoboys ''meio'' rebeldes. No entanto, mantém um ar politicamente correto. Essa aparente contradição incomoda?
Os Lagartos Voadores transgridem um pouco nesse sentido. Mas, na real, são caras bacanas, trabalhadores que estão lutando para ganhar a vida. Na verdade, não queremos avacalhar ninguém. Estamos ali, humildemente. Para mim, isso é ser politicamente correto. Não acho difícil de ser, mas outras pessoas podem achar. Tem coisa mais atual que o tema discutido na novela? Temos a desigualdade social e até o preconceito, porque o Foguinho é um negro e é pobre...

E o Duda inclusive ajuda o Foguinho, personagem do Lázaro Ramos. Mas o Foguinho fica com a herança que seria dele...
Pois é, o Foguinho é malandro. Ele está ali na boa, mas com certeza está dividido entre ganhar essa fortuna ou prejudicar uma pessoa que sempre o ajudou. No princípio, o Duda foi uma das poucas pessoas que tentou levantar sua bola. Mas ele é malandro, né?!? Vamos ver até onde o Foguinho vai com isso. Em algum momento ele terá de se redimir, porque ''trairagem'' não pode! Mas acho que, acima de tudo, temos de estar de bem com nossos corações para poder tocar a vida. Não tem nada de caretice nisso. Temos de lutar para sermos bons, para tentar dizer a verdade para todos. É um exercício difícil, pouca gente consegue. Acho que existem essas contradições, porque é difícil ser bacana o tempo todo.
Na tevê, você já viveu alguns personagens com esse perfil do bom moço. Ser o galã é instigante ou você gostaria de viver um vilão?
Não me vejo como galã. Na verdade, estou fazendo um personagem como outro qualquer. Para mim, o Duda é apenas mais um na trama. Acho indiferente estar no papel de galã. Não tenho essa necessidade. Não sei se isso é bom ou ruim. Só estou fazendo um personagem, como outros que já fiz. Agora, o vilão não tem as amarras da bondade. Ele está entregue ao vale-tudo. É diferente do mocinho, que se preocupa com tudo. Talvez por isso seja mais difícil de agradar. Inclusive porque fazer o bom rapaz é uma linha complicada. A verdade tem de estar presente nele, senão o personagem fica caricato. Não tenho vontade de fazer um grande vilão. Minha vontade é de fazer personagens diversos, não importa aonde.

O Duda, assim como o personagem-título de 'Cazuza - O Tempo Não Pára', tem uma sede pela liberdade e um instinto corajoso. Você se identifica com isso?
Acho que só o fato de eu ser um ator já implica esse perfil de não ter rotina e possuir um espírito mais aventureiro. Considero que já está embutido, porque é um universo onde o profissional nunca sabe o que vai ser da sua vida no futuro. Hoje estou aqui, mas amanhã posso estar longe. É tudo muito imprevisível.
Seu personagem exerce uma profissão de risco, mas demonstra também um lado sensível com a música. Como foi a preparação?
O Wolf Maya me ligou no dia 13 de janeiro e perguntou se eu sabia andar de moto. Aí eu falei: ''Caramba, tirei a carteira há dois dias!''. Fiquei empolgado, nem imaginava que viveria um motociclista. Depois ele me contou mais detalhes do personagem, que ele tocaria o saxofone, gaita, clarinete... Aí, comecei a fazer aulas de sax que, aliás, faço até hoje. A preparação ficou por aí. Gosto muito do envolvimento do Duda com música e essa coisa dele integrar o grupo dos Lagartos Voadores, que é um negócio bacana, totalmente jovem e com uma galera da mesma idade dele. Tem também a relação dele com a família e com a Silvana, da Totia Meirelles. Confesso que dei sorte de pegar um Francisco Cuoco como companheiro de gravação. Havia uma identificação legal entre nós.

'Cobras & Lagartos' veio com a missão de alavancar a audiência do horário, já que 'Bang Bang', a antecessora, deixou a desejar. Como você avalia os desdobramentos da trama de João Emanuel Carneiro?
A primeira sensação que tive quando li a sinopse foi de que vinha coisa boa pela frente. As idéias são claras na cabeça do João. Os diálogos são bem escritos, assim como as falas dos personagens, que também são bem legais. Não é à toa que a novela está indo bem. Plasticamente, acho que a trama está legal. E, sem dúvida, tem a mão do Wolf Maya, que é um grande diretor, assim como os outros que já trabalhei. Todos os amigos que já tinham feito novelas com ele falavam que ele dirigia para o ator. Então, fiquei na expectativa. E o Wolf realmente dá uns toques bacanas quando está dirigindo, sabe posicionar o ator para fazer uma boa cena. Por isso, as cenas dirigidas por ele ganham profundidade.

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