TEVÊ - Um mergulho nas raízes do blues
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de abril de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Tudo começou com a instituição do centenário do blues pelo congresso americano, que elegeu 2003 como o ano consagrado a um dos mais influentes gêneros musicais. Por que um centenário em 2003? A resposta oficial: 1903 foi o ano em que WC Handy, musico afro-americano de formação clássica, declarou ter ouvido pela primeira vez alguém tocar o ''slide'' (estilo de dedilhar a guitarra no qual o guitarrista desliza a paleta pelas cordas do instrumento) em uma estação de trem do Mississipi.
Ampliando as comemorações, a maior contribuição para a festa partiu do cinema. Idealizada há cerca de seis anos por Martin Scorsese, que assumiu a produção executiva do projeto, se cercou de cineastas-bluseiros competentes e assinou como diretor um dos segmentos, a série ''The Blues - A Musical Journey'' é material antológico e indispensável, não só pela riqueza da pesquisa e resgate de valores, mas também pela entrega com que seus respectivos ''curadores'' se debruçaram sobre temas e personagens de eleição. À medida que os filmes iam ficando prontos, eram imediatamente selecionados para exibição em grandes festivais internacionais. A rodada inicial foi em Cannes-2003, com ''The Soul of a Man'', do alemão Wim Wenders. Depois, um a um, vieram os outros seis títulos, afinal exibidos todos juntos em Veneza-2004.
Nesta semana, e também na próxima, o canal pago GNT, da NET, está mostrando a série completa, um filme por madrugada (sempre à meia-noite e quinze). Os dois primeiros, justamente os de Scorsese (''Uma Jornada Musical'') e de Wim Wenders (''A Alma de Um Homem''), já foram exibidos segunda-feira e ontem. Mas ainda há muito pela frente, e com a mesma qualidade dos filmes iniciais. Inédito nos cinemas brasileiros e também na tevê, este amplo e informativo painel quase nada perdeu em sua transição da tela grande para a moldura televisiva. O som, é claro, sai prejudicado pelo novo enquadramento, mas nada que cause prejuízo irreversível. Vale acima de tudo a entrega ao convite irresistível às diversas etapas dessa jornada que fascina tanto a iniciados como a recém-chegados.
Hoje é dia de ''A Estrada para Memphis'', de Richard Pearce. O diretor, com lugar já previamente assegurado por seu histórico documentário ''Woodstock'', retrata Memphis nos anos 1950, e inclui a última entrevista televisiva de Sam Philips, fundador do Sun Studios, o homem que descobriu Elvis Presley. Quase morrendo, Philips declarou: ''Me dei conta de que esta música teria que ser cantada por um branco para fosse afinal conhecida''.
Amanhã, o ''garoto de ouro'' Clint Eastwood mostra porque as trilhas sonoras de seus filmes (Lennie Niehaus, o parceiro mais frequente) são sempre de encher os ouvidos. Em ''Piano Blues'' o diretor - e aqui mestre de cerimônias - explora uma das paixões de sua vida, o instrumento do título dedicado ao blues. Em cena, muito material histórico raro, além de entrevistas e atuação de lendas vivas ou já desaparecidas. Na sexta, a vez é de ''Vermelho, Branco e Blues'', do diretor Mike Figgis: o gênero nos anos pós-guerra e o sucesso na Inglaterra, destacando a importância de músicos como John Mayall, Eric Clapton e Mick Jagger. O documentário destaca ainda os diferentes estilos de blues, jazz e rock.
Na próxima segunda-feira, o filme é ''Padrinhos e Afilhados'', de Marc Levin, fazendo prevalecer frase famosa de Willie Dixon: ''O blues é a raiz, e o resto é fruto''. Finalmente, fechando a série na terça-feira, 12, o sugestivo ''Se Aquecendo Junto ao fogo do Diabo'', de Charles Burnett, uma escala indispensável e fartamente documentada em New Orleans, celeiro do blues.


