Tom Zé, um dos personagens mais singulares da MPB, passou maus bocados durante sua carreira. Ficou célebre o período em que a simples menção a seu nome vinha associada ao rótulo ''maldito'', aplicado pela imprensa musical para designar artistas talentosos desprezados pela indústria fonográfica e pelo grosso do público.
Tom Zé foi redescoberto no início da década de 90, depois de uma mãozinha providencial do músico norte-americano David Byrne, que o lançou nos Estados Unidos através de uma compilação de sua obra. Daí seguiram-se artigos elogiosos nas principais publicações estrangeiras, transformando-o também num ícone para músicos da nova geração, a ponto de levá-lo para uma turnê com a banda Tortoise, de Chicago (EUA).
É já vivendo essa fase de euforia que ele aparece em dois registros televisivos um vai ao ar hoje pela TV Cultura e outro foi exibido pela mesma emissora há mais de dez anos chegando agora às lojas em formato DVD. No primeiro, Tom Zé é atração do programa semanal ''Repertório Popular'', que será exibido às 01h30.
Aqui, ele aparece num show gravado em 1999, época do lançamento do CD ''Com Defeito de Fabricação''. No palco, tem a companhia de uma banda formada por Lauro Cestari (bateria), Sérgio Caetano da Silva (cavaquinho), Cristina Carneiro (teclado), Gilberto Assis de Oliveira (baixo) e Marco Prado (guitarra).
O repertório da apresentação inclui diversas músicas de sua autoria, como ''Curiosidade'', ''Cademar'' e ''Augusta, Angélica, Consolação''. O DVD, por sua vez, traz a participação de Tom Zé numa edição do programa ''Ensaio'' de 1991, quando ele voltava a experimentar o sabor do reconhecimento. O material reúne dez números musicais tocados ao vivo, além de uma entrevista na qual o artista revela uma notável verborragia.
Acompanhado da banda, Tom Zé canta ''Só (Solidão)'', ''Hein?'', ''Um oh! E um ah!'', ''Cademar'', ''Lavagem da Igreja de Irará'', ''Parque Industrial'', ''São São Paulo'', ''Se o Caso é Chorar'', ''Jingle do Disco'' e ''Ogodô Ano 2000''. No depoimento ao produtor Fernando Faro, ele fala sobre diversos assuntos, da infância em Irará (BA) ao primeiro contato com David Byrne, em 1986.
''A primeira música que cantei na vida foi a 'Moda da Mula Preta' (Raul Torres)'' conta. ''É a lembrança mais remota que tenho, nem sei a letra. Uma moça, que era da mesma rua e era cantora, me disse: 'você tirou um tom muito alto'. Eu nem sabia que diabo era tom e tudo ficou por isso mesmo''. Ao recordar a vida de criança, fala com entusiamo dos fregueses da loja de seu pai, que teriam sido fundamentais para sua formação cultural.
''Portugal e Espanha foram educados pelos árabes, não ficaram infensos às invasões bárbaras na Idade Média'' discorre. ''E foram essas pessoas energizadas pelo povo mais civilizado daquela época que se incubaram no nordeste. Eram elas que eu atendia no balcão da loja de meu pai. Eu conversava com os tabaréus (caipiras aqui no sul) e, sem saber, frequentava uma universidade de alto nível. O vocabulário deles era mais amplo e o gosto pela cultura era mais forte. O fato de eles serem analfabetos, tornava-os muito mais preocupados com a cultura. São essas pessoas que você vai encontrar nos livros de Guimarães Rosa, eles são os professores de Guimarães Rosa'' salienta.
Entusiasta da cultura oral, Tom Zé sugere que os versos da cantiga ''O Cravo Brigou com a Rosa'' escondem sutilmente a descrição de um defloramento. Logo em seguida, ele caracteriza a Bossa Nova como um estilo musical feminino. ''Quando vim para o sul, tinha uma vida acostumada ao matriarcado, porque a mulher tem uma função diferente na Bahia da que tem aqui. Lá ela é mais importante. Nós estávamos habituados a essa educação, a essa influência, por isso a Bossa Nova não nos surpreendeu. E o que foi a Bossa Nova senão um mundo todo de síncope, um mundo todo feminino?'' teoriza.
Ao falar sobre o Tropicalismo, ele lembra que o movimento de que participou no final dos anos 60 ao lado de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Torquato Neto, Mutantes e outros usou a linguagem das roupas para efeito de atração da juventude. ''Amarelo e vermelho não eram cores que homem vestisse. E o cabelo de um homem que se respeitasse não podia cobrir sua orelha'' conta.
O DVD chega às lojas pela gravadora Trama, que já lançou outros títulos da série ''Ensaio'' dedicados a Elis Regina, Gal Costa, Tim Maia, Baden Powell e Jair Rodrigues.

Serviço:
- Hoje: Tom Zé no programa ''Repertório Popular'' (TV Cultura). Horário: 01h30.
- Nas lojas: Tom Zé no DVD ''Tom Zé Programa Ensaio 1991''. Lançamento: gravadora Trama. Preço sugerido: R$ 44,90.

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