TEVÊ - Censura no país do nu?
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domingo, 11 de dezembro de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Lá se vão 20 anos que o filme ''Nove e meia semanas de amor '' estreou. Se na época o longa, um clássico da sedução do cinema, foi considerado ousado, principalmente pelas cenas de amor entre Kim Bassinger e Mickey Rourke, hoje ele é programa de sessão da tarde na televisão. O horário, aliás, parece não determinar a programação na telinha, seja ela imprópria para menores ou não. Exemplos não faltam e não são apenas filmes americanos, que exaltam cenas de sedução e nudez. Novelas nacionais que originalmente foram exibidas no horário das 21 horas, considerado pouco ou nada recomendável para crianças, hoje são reprisadas durante a tarde, como foi o caso recente do folhetim global ''Laços de Família''. A novela tinha cenas quase tão fortes quanto o filme de Adrian Lyne e estava ali, passando às três da tarde, para quem quisesse ver.
Mas a exibição de cenas que mostrem ou insinuem cenas de nudez na televisão podem estar com os dias contados. Pelo menos é o que espera o deputado federal Gilberto Nascimento (PMDB - SP). Ele é autor de um projeto de lei que restringe cenas eróticas na televisão. A proposta (projeto de lei 5914/05), abrange tanto os canais abertos como os por assinatura e se estende, inclusive, para inserções publicitárias. O projeto, aliás, é quase tão ousado quanto uma cena erótica: proíbe não só cenas de mulheres sem roupa quanto à associação da nudez, ou de sua sugestão, além de patrocínio de programas e merchandising (propaganda subliminar) e propaganda de produtos, serviços ou ações de qualquer natureza que mostrem pessoas nuas. A exposição da nudez ficaria limitada ao horário das 23 horas às 4 horas da manhã.
A proposta fixa multa de até R$ 2 mil por programa em caso de descumprimento da norma. A emissora reincidente, além da multa, ficaria sujeita à suspensão das operações por até 48 horas. Ficariam isentos das exigências os canais de televisão por assinatura contratados em separado que disponham de sistema de senhas ou de controle para acesso à programação.
O deputado autor do projeto não falou à Folha, mas divulgou por meio de sua assessoria que a nudez feminina na televisão representa ''um preconceito injustificado, até mesmo em vista das conquistas sociais das mulheres, que hoje apresentam escolaridade média mais elevada que os homens''. Além disso, o deputado diz estar preocupado principalmente com o público infanto-juvenil, exposto a esse tipo de programação.
O projeto tramita em caráter conclusivo e será examinado pelas comissões de Seguridade Social e Família; de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática; e de Constituição e Justiça e de Cidadania, antes de ser levado para aprovação. Numa análise histórica, é preciso lembrar que cenas de nudez na televisão não começaram ontem. Foi o primeiro beijo, dado pelo ator Walter Foster na novela ''Sua vida me pertence'' (TV Tupi) nos já distante anos 50, que abriu espaço para ''ousadia''. Foi quase um selinho, que deixaria o elenco de ''Malhação'' corados pelas suas atuações atuais, mas mesmo assim a emissora recebeu inúmeras cartas de protesto.
Na mesma época, o jornal Repórter Esso sofreu represálias por mostrar a primeira cena de nudez frontal ao mostrar uma reportagem sobre índios na sua edição noturna. Um cena de nudez em programas de ficção só iria ao ar, mais de duas décadas depois. Em 1975, a personagem Chiquinha, interpretada pela atriz Cidinha Milan fez o primeiro nu da televisão brasileira na novela ''Gabriela''. Hoje, já se perdeu a conta das cenas que aparecem, tanto na programação de filmes, quanto novelas e programas de auditório, que exibem corpos nem tão esculturais de dançarinas e afins.
Para a atriz curitibana Guta Stresser, atriz de ''A Grande Família'', uma das séries mais comportadas e engraçadas da programação atual, a proibição soa como censura. Ela diz acreditar mais em um ''acordo de cavalheiros'' entre produtores e emissoras para que a nudez não seja explorada de forma vulgar e em horários livres. ''Qualquer proibição nesse sentido seria um retrocesso. A questão é mais ética do que legal'', declara. Guta já fez cenas nuas no cinema e no teatro (incluindo no espetáculo paranaense ''O Vampiro e a Polaquinha'', do qual foi protagonista), mas diz que não o faria na televisão. ''Na televisão, o público está mais exposto, não é como no cinema e no teatro, que as pessoas pagam e escolhem o que querem ver'', considera a atriz.
Para o cineasta Beto Carminatti, que acaba de lançar o filme ''O Mistério da Japonesa'', que tem um cena de nudez, o projeto do deputado pode cair numa análise extremamente subjetiva do que seria ou não exploração da imagem do corpo nu. ''É delicado, tem que ter bom senso para analisar e tudo depende da questão narrativa do que está se apresentando''. Para o cineasta, que também atua como diretor de TV, existe uma pornografia pior do que a mencionada no projeto do deputado: ''a parafernália da indigência intelectual''. ''Muitas vezes uma cena de nudez é mais bonita que programas feitos por loiras prateleiras que só servem para vender produtos'', argumenta.


