Discos de homenagem a cantores que já conseguiram a fama são sempre uma tentativa para vender. Melhor ainda se nutrirem a curiosidade necrófila do público, que é levado a ter a sensação de que aquela será uma das últimas oportunidades de comprar um disco dos hits preferidos. Sandra de Sá apela para essa alternativa e consegue emplacar 200 mil cópias vendidas do CD ‘‘Eu Sempre Fui Sincero, Você Sabe Muito Bem’’, em que homenageia Tim Maia. Sem ligar para as críticas de oportunismo, Sandra admite: ‘‘Se eu não gravasse logo esse CD, viria outro cantor e gravaria’’.
Com a assumida pretensão de se achar a herdeira natural de Tim Maia, Sandra se debruçou sobre a obra do músico para selecionar 13 faixas. ‘‘Acabei escutando canções que nem conhecia’’, surpreende-se. Sandra perdeu as contas do número de canções que Tim cantou ou compôs que ela ouviu e encontrou dificuldades para escolher o repertório. Para ajudá-la, a cantora contou com o produtor Guto Graça Mello que, além de assinar a produção do disco, revirou com ela um baú musical de 30 anos da carreira de Tim Maia. ‘‘Apelei para a emoção. Aquela que me arrepiava eu selecionava’’, enfatiza Sandra. O resultado acabou sendo uma lista eclética de músicas. Não apenas os sucessos de Tim, mas também faixas menos conhecidas do público.
Entre as conhecidas estão ‘‘Sossego’’, ‘‘Azul da Cor do Mar’’ e ‘‘Telefone’’. Já entre as obscuras podem ser encontradas ‘‘Batata Frita’’, ‘‘O Ladrão de Bicicleta’’ e ‘‘Razão Pra Sambar/Meu Samba’’, essa última um mix de dois sambas compostos por Tim Maia. Embora Sandra tenha se surpreendido com a vastidão do repertório que não conhecia, uma música em especial deixou a cantora de olhos arregalados. A faixa, na verdade, é uma vinheta que se chama ‘‘Flamengo’’. ‘‘Quando escutei ‘Flamengo’ me senti vencedora. Um americano roxo fez uma música para o meu time do coração’’, comemora.
A união de Sandra de Sá e Tim Maia é caso antigo. Quando Tim se transformava num dos expoentes da soul music brasileira nos anos 70, Sandra tinha 16 anos e ainda não pensava em ser cantora, mas já tinha discos de Tim Maia na discoteca. ‘‘Ouvindo as músicas de Tim me senti remexendo na minha adolescência’’, enfatiza. A carreira começou mesmo nos anos 80, quando se apresentou no Festival da Canção de 1980 cantando a música ‘‘Demônio Colorido’’. Logo, a canção se transformou num hit e o refrão ‘‘sarará crioulo’’, estava na boca do público. O sucesso acabou levando ao convite de Tim Maia para gravarem juntos. ‘‘Eu nem acreditei quando atendi o telefone e era o Tim’’, espanta-se.
O primeiro trabalho de Sandra de Sá e Tim Maia juntos foi em 1983. A música era ‘‘Vale Tudo’’, que foi incluída no disco ‘‘Trem da Central’’, de Sandra. Em 1991, eles estavam de volta para cantar ‘‘Não Tem Saída’’, faixa do CD ‘‘Luck’’. ‘‘Tive o privilégio de cantar com o Tim. Ele é um gênio’’, exagera. Na música, Sandra e Tim sempre revezavam num duelo de vozes. Apesar de ter conhecido Tim ainda no início da carreira, Sandra nunca se colocou na posição de aprendiz. ‘‘O Tim nunca me deu toques. Sempre foi uma troca’’, gaba-se.
Essa independência musical deu a Sandra de Sá a liberdade de transformar as versões originais das faixas que escolheu para colocar no disco. ‘‘É como se eu dissesse: é assim que eu vejo o Tim Maia’’, observa. Assim, ‘‘A Festa de Santo Reis’’ ganhou uma versão mais pesada, ‘‘Sossego’’ ficou mais funk e ‘‘Ga-Gaguejando’’, faixa que passou despercebida no disco ‘‘Sufocante’’, que Tim Maia gravou em 1984, ficou com jeito de rap. Para dar o formato que queria às antigas canções, Sandra convocou o americano Jerry Hayes, arranjador do conjunto Earth, Wind and Fire, e o percussionista cubano Luis Conte, o mesmo que já gravou com Madonna. Até mesmo quando não conseguia mexer muito nos arranjos, Sandra de Sá dava um jeito de colocar a música na sua forma. A balada melancólica ‘‘Azul da Cor do Mar’’ é uma dessas faixas. ‘‘Cantei essa música com um sorriso no rosto, porque a considero uma música alegre’’, afirma. Um sorriso de quem sabe que apostou na venda certa.

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