Tesouro recuperado
Mauro Dias
Agência Estado
Irineu Garcia, o visionário criador da gravadora Festa, viajou a Barcelona, em fevereiro de 1969, para gravar, em dois dias, o disco João Cabral de Melo Neto por Ele Mesmo. Uma autêntica antologia da obra do grande poeta pernambucano, organizada pelo próprio e sem nenhuma influência estranha, escreveu o criador da gravadora no texto da contracapa do elepê.
João Cabral de Melo Neto por Ele Mesmo é um dos quatro volumes do novo lote de relançamentos, em CD, dos discos da Festa, iniciativa corajosa da sobrinha de Irineu, que resgatou, num depósito da gravadora Universal (ex-PolyGram, ex-Philips, ex-Companhia Brasileira de Discos), as matrizes perpetuadas pelo tio. O material estava largado, esquecido, abandonado, sem trato e nenhuma perspectiva de reedição. É um tesouro que está sendo recuperado.
Os outros três títulos do novo lote são Suíte Vila Rica, de Camargo Guarnieri, com a Orquestra Sinfônica Brasileira, regida pelo autor, e os volumes 1 e 2 da pioneira coletânea Mestres do Barroco Mineiro. No primeiro volume de Mestres do Barroco Mineiro (os dois discos foram gravados em 1958) está a Missa em Mi Bemol, de José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, interpretada pela Orquestra Sinfônica Brasileira e a Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro, destacando os solistas Lia Salgado, Carmem Pimentel, Hermelindo Castelo Branco e Jorge Bailly. A regência é de Edoardo de Guarnieri.
A missa é do século 18. Em nota introdutória, o compositor Edino Krieger assinala que a pesquisa e recolhimento da obra, efetuada pelo musicólogo Francisco Curt Lange, foi possível graças ao apoio do Ministério da Educação e Cultura. Lançava-se, pela primeira vez, alguma luz sobre o período. Esses documentos, poupados quase milagrosamente à ação destruidora do tempo e dos próprios homens, vêm completar o quadro histórico de uma das épocas de maior progresso cultural de nossa história, escreve Edino Krieger.
O período áureo da mineração em Minas Gerais produzia monumentos arquitetônicos como as igrejas barrocas (...) e também música sabe-se agora. Música elaborada num florescimento sem paralelo na história musical do tempo moderno. Atestam a riqueza as obras contidas no segundo volume - a Antífona de Nossa Senhora, do mesmo José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, o Credo, de Inácio Parreira Neves, a Maria Mater Gratiae, de Marcos Coelho Netto, e a especialmente bela Novena de Nossa Senhora do Pilar, de 1789, de Francisco Gomes da Rocha. Foi a única obra do compositor que chegou aos nossos dias. Curt Lange a reconstituiu.
Edino Krieger lembra que, na época, a participação feminina em cultos religiosos era proibido. Cabia aos homens cantar as vozes agudas. Na gravação da Festa, a Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro, com a Orquestra Sinfônica Brasileira, mais uma vez sob regência de Edoardo de Guarnieri, interpreta as peças.
Também de 1958 é o disco Suíte Vila Rica, de Camargo Guarnieri, que traz outras três peças do compositor dito nacionalista (Mozart de Araújo contesta: diz que, simplesmente, Camargo Guarnieri era incapaz, voluntariamente incapaz de fazer música italiana, alemã ou francesa): Três Poemas Afro-Brasileiros, Choro para Clarineta e Orquestra e Seca (cantata para canto, coro e orquestra). A gravação, ao vivo, foi realizada durante concerto do compositor, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
João Cabral de Melo Neto não gostava de poemas falados. No entanto, chamava alguns dos seus de poemas em voz alta os que se prestavam à fala. Selecionou 18, para dizê-los ele mesmo, entre os quais A Educação pela Pedra e O Cão sem Plumas.





