TESOURO INSTRUMENTAL
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de dezembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
Uma monumental dívida musical acaba de ser quitada. Com o lançamento da caixa Jacob do Bandolim, reunindo gravações originais feita pelo músico entre 1949 e 1969, a gravadora BMG restitui ao Brasil o que até então só era privilégio do mercado norte-americano.
A caixa traz três CDs garimpando 56 faixas do baú da RCA Victor, companhia fonográfica a qual Jacob (1918-1969) se vinculou após uma saída controversa da Continental. O lançamento coloca pela primeira vez nas lojas um pacote dedicado a um instrumentista.
Até agora, o formato havia contemplado apenas obras de cantores e compositores vide as recém-lançadas caixas de Noel Rosa e Dorival Caymmi. De semelhante, só havia um projeto organizado pelos americanos Dexter Johnson e David Grisman, que lançaram nos Estados Unidos dois CDs da série Jacob do Bandolim Mandolin master of Brazil no começo da década.
A caixa foi idealizada por José Milton e André Teixeira, com coordenação de Adriana Ramos. O repertório abre com a clássica Noites Cariocas e fecha com uma versão ao vivo da bossanovística Chega de Saudade. Traz pelo menos uma raridade: a gravação original de Doce de Coco, nunca editada em disco, nem mesmo em LP.
Mas contém ainda preciosidades como Lamentos, Bola Preta, Simplicidade, Assanhado e A Ginga do Mané (feita em homenagem a Garrincha). As gravações mais antigas são Dolente (do próprio Jacob) e Despertar da Montanha (Eduardo Souto-Francisco Pimentel), ambas de 1949. A segunda, aliás, marcou a estréia do artista na nova gravadora.
As músicas foram selecionadas por Henrique Cazes, autor de um dos textos de apresentação do livreto que acompanha os discos. Jacob é responsável por um salto de qualidade realmente grandioso escreve ele, ao comentar a importância do músico para a história do choro. Seus méritos vão desde os quesitos básicos de sonoridade e afinação, até os mínimos detalhes de expressividade. Com uma execução bem acabada, repertório precioso e extremo capricho em cada registro, Jacob do Bandolim construiu uma ampla discografia mais de duzentas gravações que hoje é considerada como a mais valiosa do instrumental popular brasileiro.
Ao longo das faixas, o artista se apresenta com formações diversas vários conjuntos, trio de jazz e orquestras de sopro e cordas. As gravações documentam sua evolução como músico, desde suas primeiras performances como jovem integrante de grupos regionais ao solista de grande orquestra regida por Radamés Gnatalli, passando naturalmente pela figura de mestre idolatrado por incontáveis chorões.
O choro é predominante, mas o repertório vai além do gênero incluindo samba canção (Serra da Boa Esperança, de Lamartine Babo), um semi-fado (Vascaíno), frevo (Sapeca), valsa (O Vôo da Mosca, Feia, Condifências e Santa Morena), tango (Despertar da Montanha) e modinha (Modinha, de seu filho Sérgio Bittencourt com Orlando Silva ao vocal).
Como curiosidade, há três versões de Noites Cariocas, o maior sucesso de Jacob. A primeira, que abre o CD 1, é a gravação original e tem acompanhamento do acordeon de Orlando Silveira. A segunda versão, que fecha o CD 2, é a mais sambada trazendo surdo e trombone nos arranjos. A terceira, gravada em uma roda de choro na casa do músico, mostra segundo Cazes o Noites Cariocas como é mais executado atualmente, utilizando a segunda parte para intermináveis improvisos.
Outra curiosidade é a presença da violinha nas faixas Cristal, Nostalgia e Migalhas de Amor. O instrumento é um pequeno violão tenor de quatro cordas desenvolvido por Jacob. Chama atenção também o hino bossa-nova Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, que fecha a caixa numa gravação ao vivo feita em 1968 no Teatro João Caetano.
Tradicionalista empedernido, Jacob adorava a canção, mas repudiava a bossa nova que considerava um movimento musical nefasto influenciado pelo jazz e alheio às raízes populares locais. O fato de modificar algo não significa necessariamente evolução. Pode também ser involução. E, aliás, é o que vejo observou certa vez.
Numa carta ao jornalista e pesquisador Sérgio Cabral, informou que Tom Jobim lhe confessara certa vez que as dezessete gravações existentes de Chega de Saudade estavam erradas, o que incluía tanto a de João Gilberto quanto a de Elizeth Cardoso. Munido da partitura original, decidiu então interpretá-la corretamente mostrando sua versão no álbum Jacob Revive Sambas para Você Cantar (de 63) e na noite de célebres improvisos do dia 19 de fevereiro de 1968 quando subiu ao palco ao lado do Zimbo Trio.
É esta última performance que foi incluída na caixa. Numa bela imagem, João Máximo (autor de um perfil de Jacob no livreto) lembra que o homenageado tocava de olhos fechados com aquele jeito de quem está rezando. Sisudo no trato pessoal, o artista teve alguns ilustres desafetos em vida. Apesar de ser rival do também bandolinista Luperce Miranda, depositou seus venenos sobre Waldir Azevedo, o cavaquinista que o substituíra como principal instrumentista de choro da gravadora Continental após sua transferência para a RCA Victor.
Virulento, acusava o autor de Delicado e Brasileirinho como responsável pela deterioração da música brasileira. Impiedoso com os inimigos, era na mesma e inversa proporção generoso com quem admirava. Reconhecia Radamés Gnatalli como principal responsável pelo seu aprimoramento como músico. Se até hoje existia um Jacob feito exclusivamente à custa de seu próprio esforço, de agora em diante há outro, feito por você escreveu, em 1964, ao maestro.
Discípulo de Pixinguinha (considerava Ingênuo o choro mais perfeito já feito na história do gênero), descobridor de Elizeth Cardoso e influenciador de Paulinho da Viola e de toda a safra posterior de bandolinistas, Jacob nunca viveu apenas de música. Ajudou a criar o ambiente dos saraus no Rio de Janeiro, mas nas noitadas estava sempre com um olho no relógio preocupado com o batente do dia seguinte.
Ao longo da vida, sempre foi funcionário público exercendo a tarefa de escrivão da Justiça. Morreu aos 51 anos, de infarto, quando voltava da casa de Pixinguinha na sexta-feira, 13 de agosto de 1969. A caixa com os três CDs recupera parte substantiva de sua genialidade. Resta escavar suas primeiras gravações na Continental.


