Na última sexta-feira, foi lançada pela Funarte a coleção ‘‘Tesouros do Cinema Latino-Americano’’. Nesta primeira remessa estão disponíveis ao público 19 filmes silenciosos em vídeo, acompanhados de um catálogo ilustrado. No pacote, cuja curadoria é assinada pela pesquisadora Silvia Oroz, dois títulos são da Argentina, quatro do México, um de Cuba, um do Peru, três da Venezuela e oito do Brasil.
Em geral são desconhecidos, particularmente os originários dos países hispânicos, vizinhos solenemente ignorados no Brasil, apesar de esforços de aproximação de tipo Mercosul. Do Brasil, ao contrário, há os clássicos ‘‘Limite’’, de Mário Peixoto, e ‘‘Brasa Dormida’’, de Humberto Mauro, ambos conhecidíssimos por todos aqueles que se interessam pelos primórdios do cinema nacional moderno.
ReproduçãoO filme ‘‘Brasa Dormida’’ de Humberto Mauro (foto) também está presente na coleção recém-lançadaMas há também títulos menos evidentes, como ‘‘Canção da Primavera’’, de Cyprien Ségur e Igino Bonfioli, ‘‘Ao Redor do Brasil’’, de Luiz Thomaz Reis, ‘‘Alma do Brasil’’, de Líbero Luxardo, além de ‘‘Aitaré da Praia’’, de Gentil Roiz, e ‘‘A Filha do Advogado’’, de Jota Soares - estes dois os mais notáveis exemplares do ciclo de cinema do Recife.
Com ‘‘Sangue Mineiro’’, também de Mauro, o conjunto forma uma excelente amostragem do que foram as primeiras tentativas brasileiras na época do cinema silencioso. Claro, o destaque fica mesmo para ‘‘Limite’’ e ‘‘Brasa Dormida’’, que aliam pioneirismo a uma qualidade técnica e intelectual que perdura até hoje. Ambos foram fotografados por Edgar Brasil, mas o trabalho notável é mesmo em ‘‘Limite’’, filme cuja temática parece bastante influenciada pelas vanguardas européias, mas bastante ‘‘nacional’’ em sua forma, na maneira de apreender a luz, por exemplo.
‘‘Limite’’ usa a trama apenas para comentar o enredo metafísico da finitude humana, e ‘‘Brasa Dormida’’, mais concreto, conta a história de um estróina que gasta todo o dinheiro no Rio, emprega-se como gerente de usina no interior e apaixona-se pela filha do patrão. É o terceiro longa-metragem de Mauro, mas não sua obra-prima. Foi elogiado por Octávio de Faria, que detectou a disposição do jovem cineasta em ir além de uma mera narração. Estão lá, embrionários, os elementos poéticos e metafóricos que fariam a grandeza de ‘‘Ganga Bruta’’, quatro anos depois.
Se os brasileiros são relativamente conhecidos, os de origem hispânica, até agora, eram privativos de escavadores de arquivos e especialistas. Há curiosidades, como por exemplo o mexicano ‘‘El Pu¤o de Hierro’’, um filme de aventuras considerado ousado para a época, com trama envolvendo bandidos, traficantes de drogas e prostitutas.
‘‘Don Leandro, el Inefable’’, da Venezuela, narra as peripécias de um provinciano, que chega a Caracas, onde terá de se defrontar com aproveitadores, interessados em separá-lo o mais rápido possível do seu dinheiro. Esse filme tem o interesse de apresentar partes em cores, conseguidas pela técnica de imbibição, numa época em que negativos coloridos não eram disponíveis.
No gênero aventura, misturado a boa dose de melodrama, estão títulos como ‘‘La Cruz de un Ángel’’, de Amábilis Cordero, da Venezuela. Na trama, uma história de bandidos e de um filho pródigo que, em sua volta, acaba causando uma série de desgostos à família. No entanto, segundo crônicas de jornais da época, o filme termina com um final feliz de rigueur para atrair espectadores de todos os tempos.
Cordero, como consta dos anais do antigo cinema latino-americano, era um faz-tudo. Produzia, rodava, revelava os negativos e montava os próprios filmes, além de projetá-los nas salas de exibição. Provavelmente também cobrava os ingressos na bilheteria e funcionava como lanterninha.
Os temas básicos repetem-se e concentram-se, de modo geral, na figura do melodrama. O cubano ‘‘La Virgen de la Caridad’’, por exemplo, é uma história rural de amor e fé. Um rapaz, cujo pai morreu na guerra da independência contra a Espanha, enamora-se da filha do poderoso local que, claro, se opõe ao romance. O homem, no entanto, é figura apenas virtual em ‘‘Yo Perdí Mi Corazón’’ en Lima, filme de mulheres, vivendo da ausência masculina produzida em tempos de guerra.
Não se pense, porém, que, apesar das aparências, esses filmes dos primórdios sejam inteiramente toscos. Ao contrário. O renomado fotógrafo Nestor Almendros assim escreve sobre ‘‘La Virgen de la Caridad’’: ‘‘A última sequência é brilhante, com suas ações paralelas num ritmo in crescendo, movimentos de câmera bem executados e primeiros planos à Griffith, montados magnificamente’’. Quer dizer, muitas vezes esses filmes eram até simplórios quanto ao conteúdo, mas compensavam essa falta pela exuberância da forma.
Explica-se. Como não podiam fazer seus personagens dialogar, os cineastas eram obrigados a manter a inventividade da narrativa visual. As falas apareciam apenas por letreiros, mas estes tinham de ser usados com economia, para não cansar o público. Afinal, ninguém vai ao cinema para ficar lendo. Por isso, grandes conquistas de linguagem datam da época do cinema mudo.
Quando surgiu o som, muita gente boa achou que as características próprias do cinema seriam destruídas. Entre essas pessoas, estavam os membros do Chaplin Club, do Rio, que tinha o poeta e então crítico Vinícius de Morais como um dos mais intolerantes detratores do cinema falado - o grande culpado da transformação.
‘‘Tesouros do Cinema Latino-Americano’’. Coleção de 19 filmes mudos e catálogo ilustrado. Lançamento da Funarte. Informações podem ser obtidas no Departamento de Cinema e Vídeo da Funarte. Avenida Brasil, 2.482, Rio de Janeiro, RJ.ReproduçãoEm ‘‘Limite’’, filme que integra a coleção da Funarte, Mário Peixoto utilizou erudição e trabalho de câmera incomum no cinema brasileiro dos anos 30Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado

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