Contra a concessão descarada, a subversão incondicional. ‘‘Getsêmani’’, o novo espetáculo do Cemitério de Automóveis, é emblemático da trajetória do grupo criado há 18 anos, em Londrina, e radicado há cinco em São Paulo.
A montagem entra em cartaz hoje, em São Paulo, no teatro Augusta, inaugurando a Sala Experimental do espaço, com capacidade para 40 lugares.
Atualmente ancorado pelo autor, diretor e ator Mário Bortolotto, pelo ator Joeli Pimentel e pela atriz Fernanda D’Umbra (aqui fazendo as vezes de produtora), o Cemitério é caracterizado pela produção ininterrupta, por vezes à míngua, vencendo as dificuldades de praxe para quem faz teatro dito experimental, independente.
Em ‘‘Getsêmani’’, uma produção de cerca de R$ 1.5 mil, que agrega atores convidados, terroristas de uma organização, todos batizados com nomes de apóstolos, sequestram um editor de livros de auto-ajuda para obrigá-lo a publicar autores ‘‘decentes’’, como Bashô (‘‘Algum pai de santo?’’, pergunta o editor), Celine, Rimbaud e Keats.
O plano dos terroristas culturais é, lançadas as obras da sua lista, assaltar livrarias e distribuir exemplares para adolescentes e crianças da periferia. ‘‘Este é o sequestro mais imbecil da história com uma finalidade inacreditável. Quando a imprensa descobrir, vocês vão virar motivo de chacota em todo o território nacional’’, diz o editor Wiltão (Wilton Andrade).
O duelo verbal entre os extremistas (editor de auto-ajuda versus guerrilheiros culturais) dá o tom de ‘‘Getsêmani’’, título que remete ao horto das oliveiras no qual Cristo, de acordo com a Bíblia, passou a noite rezando e pedindo a Deus para que, se fosse possível, Ele o livrasse do que estava predestinado. Foi lá que Cristo foi preso e traído por um beijo de Judas Escariote.
A despeito da temática marginal que domina boa parte da sua dramaturgia, composta por cerca de 30 peças, Bortolotto traz no currículo cinco anos de frequência em seminários do interior do Paraná, ‘‘estudando para ser padre’’.
Completam o elenco Henrique Stroeter (Tomé), André Ceccato (Tadeu) e o músico e compositor Carlos Careqa (Besta), além de Pimentel (Mateus) e do próprio Bortolotto (Pedro).
‘‘Getsêmani’’ encerra a trilogia de Bortolotto sobre violência, solidão e morte, que começou com ‘‘Medusa de Rayban’’ (97) e ‘‘Postcards de Atacama’’ (98).
No ano passado, o Cemitério realizou uma mostra no Centro Cultural São Paulo com 14 peças, 13 delas assinadas por Bortolotto, o que lhe valeu o prêmio da APCA de melhor autor de 2000 pelo conjunto de sua obra.
Outro texto seu, ‘‘Nossa Vida Não Vale Um Chevrolet’’, também recebeu indicação para o prêmio Shell do ano passado. O dramaturgo se diz influenciado pela literatura de escritores como Charles Bukowski, Jack Kerouac e Henry Miller.
Além do teatro, carro-chefe do grupo, o Cemitério de Automóveis envereda pela música. No ano passado, ele lançou o CD ‘‘Cachorros Gostam de Bourbon’’, que mistura rock e baladas de blues, a maioria letras de Bortolotto.
No próximo dia 26, o grupo vai se apresentar no Centro Cultural São Paulo com um show conjunto com a banda La Carne, de Osasco (Grande São Paulo), com participação do músico. O título do show? ‘‘Los Cachorros Apreciam La Carne’’.
O teatro Augusta -Sala Experimental- fica na rua Augusta, 943, região central. O espetáculo pode ser visto de de quinta a sábado, às 21h30; domingo, às 20h. Até 8 de julho. Mais informações pelo telefone (11) 3151-4141.

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