TERRORISMO DE BOLSO
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de setembro de 2001
Marcos Losnak<br> De Londrina<br> Especial para a Folha 2 
Vamos supor que exista um garoto arrogante no quarteirão. Com imagem de poderoso, impõe suas vontades através da força e da intransigência. Arranca, sem pudores, os brinquedos das mãos de outras crianças e adora distribuir beliscões. Todos jogam futebol com ele, afinal é o dono da bola, mas o consideram um tremendo chato metido a besta.
Vamos supor que um dia o garoto caia de boca no chão e quebre os dois dentes da frente. Num primeiro momento, as crianças do quarteirão podem ficar assustadas com o sangue, o choro provocado pela dor, pela violência da cena. Num segundo momento, podem pensar que ele merecia tal acidente murmurando baixinho ''bem-feito''.
Sejam dois dentes quebrados ou duas torres derrubadas, o ''bem-feito'' também pode ser encontrado dentro de casa, na boca dos irmãos. O escritor norte-americano Donald E. Westlake mostra como isso pode acontecer em ''O Corte'', romance lançado pela Editora Companhia das Letras. O livro é uma ácida crítica ao selvagem sistema competitivo que comanda os Estados Unidos e rege sua população. Onde quem pode mais chora menos com os fins sempre justificando os meios.
''O Corte'' narra a história de Burke Devore, um típico americano de classe média. Administrador de empresas, ele é um homem que sempre seguiu os ensinamentos de seu país. Casado, pai de dois adolescentes, dois carros na garagem, geladeira cheia e férias na praia, leva um vida tranquila. Isso até o dia em que é despedido da fábrica de papel na qual trabalhava. Após 25 anos de dedicação canina na empresa, recebe um ''pé na bunda'' em nome de ''contenção de gastos''
Durante meses ele tenta conseguir outro emprego, mas a chamada ''reorganização empresarial'' espalha desempregados pelo país. Sua rotina diária se divide em percorrer classificados dos jornais à procura de uma vaga, e de enviar currículo de trabalhador honesto e qualificado a dezenas de empresa.
Abatido pela situação, humilhado pelo seguro-desemprego, começa a assistir à sua família ruir. A mulher arruma um amante e o filho mais velho, viciado em programas de computador, começa a roubar lojas de informática. Para solucionar, o drama decide radicalizar suas ações. Seguindo os preceitos da competividade, resolve eliminar seus concorrentes de uma vez por todas. Não vencendo-os nas entrevistas e testes, mas simplesmente matando-os.
Burke Devore cria uma maneira de ter acesso aos currículos de todos os profissionais desempregados de sua área de trabalho. Estudando-os, escolhe aqueles que podem ser fortes concorrentes a uma vaga e começa a eliminá-los, um por um. Seu ato não é em nome da violência ou do ódio, mas em nome da lógica de mercado: ''Não sou um matador. Não sou um assassino. Nunca fui, não quero ser assim, um sujeito desalmado, impiedoso, frio. Esse não sou eu. Fui forçado a fazer o que estou fazendo pela lógica dos eventos, pela lógica acionista, pela lógica dos executivos, pela lógica do mercado, pela lógica da mão-de-obra, pela lógica do novo milênio e, finalmente, pela minha própria lógica''.
Como sua profissão não é a de terrorista ou assassino profissional, precisa aprender o melhor meio para isso. Nesse sentido os filmes da televisão são verdadeiras aulas. Em sua mente não há nenhum tipo de arrependimento, pois está colocando em prática as lições que aprendeu com a sociedade em que nasceu, onde o código moral vigente é aquele que se baseia na idéia de que os fins justificam os meios.
No campo da competição, o único interesse é vencer. Incorporando essa moral encarnada na sociedade norte-americana, Burke Devore age como os governantes e empresários agem: ''O fim do que estou fazendo, o propósito, a meta, são bons, verdadeiramente bons. Quero cuidar bem de minha família; quero ser um membro produtivo da sociedade; quero pôr minhas habilidades à prova; quero trabalhar e pagar minhas contas, sem ser um fardo para meus semelhantes. Os meios para atingir esses fins têm sido penosos, mas me concentrei nos fins, nos objetivos. E os fins justificam os meios. Como os executivos, não devo desculpas a ninguém.''
Donald Westlake coloca em ''O Corte'' toneladas de ironia. Isso fica claro desde as primeira páginas do romance e ganha corpo no decorrer da narrativa realizada pelo próprio personagem. Após matar friamente cinco concorrentes, desempregados como ele, precisa colocar a segunda parte do plano em prática. O último passo é eliminar o trabalhador que ocupa o cargo que ele pode-se candidatar. Embora o leitor espere que Burke Davore seja preso e pague por seus crimes, o autor trabalha a história em sentido inverso. O sujeito consegue o emprego que tanto esperava e vive feliz para sempre ao lado de sua família, pagando suas contas e enchendo a geladeira. Competição é competição, mesmo que o sangue de outras pessoas precise escorrer pelo chão.
Westlake, conhecido por suas história carregadas de humor envolvendo enredos policiais como ''Dois é Demais'', percorre um caminho diferente em ''O Corte''. Troca o humor pela seriedade e mergulha nas contradições do moralismo norte-americano. Revela que, se o capitalismo (atualmente chamado de globalização) é cruel em suas práticas e mesmo assim é tratado como algo bom, a crueldade de Davore, em eliminar seus concorrentes, também pode ser justificada com algo bom - um homem bem-sucedido.
O impasse está no fato de que é sempre mais fácil condenar a atitude de um indivíduo isolado do que a atitude de uma corporação, seja empresarial ou governamental. Um peso para duas medidas, onde a corda sempre arrebenta no lado mais fraco. Em seu novo romance, Donald Westlake passa uma régua nivelando tudo. Tudo politicamente incorreto, mas verdadeiro.
''O Corte'', de Donald E. Westlake, Editora Companhia das Letras, tradução de Celso Nogueira, 304 páginas, R$ 31,00.


